Terça-feira, 13 de Agosto de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jayme Caetano Braun

.

Jayme Caetano Braun :

.


.

Galpão Nativo :

 

Meu velho galpão de estância

Da pampa verde-amarela

Que ficou de sentinela

Da história de nossa infância

És um marco na distância

Da velha capitania

Porque foste a sacristia

Do batismo do gaúcho

Quando moldou-se o debucho

Da pátria que amanhecia

Quinchado de santa fé

Oito esteios, pau a pique

Até parece um cacique

Todo emprumado de pé

O legendário sepé

Legítimo rei no trono

Que desde o primeiro entono

Trazia a pátria nos tentos

Anunciando aos quatro ventos

Que esta pátria tinha dono

.

Velho bivaque nativo

Encravado na cochilha

Palanque de curunilha

Do rio grande primitivo

Altar do fogo votivo

Que um dia o guasca acendeu

E aceso permaneceu

Bordado de picumãs

Anunciando aos amanhãs

Que o gaúcho não morreu

.

Não existe nada igual

Em qualquer parte do mundo

Como o vínculo profundo

Do galpão tradicional

Que esse fogão ancestral

Que acalenta e arrebata

Nesta velha casamata

Onde o guasca viu a luz

Galpão que a história traduz

Como oficina de pátria

.

Foi aqui que se fundiu

Aqueles velhos modelos

Que serviram de sinuelos

Da pátria que constituíram

Da pátria que construíram

Que a isso se propuseram

E nunca se detiveram

Porque nunca se detinham

Pra perguntar de onde vinham

Nem tampouco quantos eram

.

Foi aqui que descansaram

Depois das lides guerreiras

Os centauros das fronteiras

Que irmanados chimarrearam

E foi daqui que marcharam

Os andejos e os gaudérios

Negros e mulatos sérios

E tapejaras errantes

Gaúchos e bandeirantes

Rasgadores de hemisfério

.

O grande poeta balbino

Marque da rocha escreveu

Que o riograndense cresceu

Dono do próprio destino

Peleando desde menino

Criado longe do pai

E é ele que um dia vai

De boleadeira e de vincha

E trás o brasil na cincha

Pras barrancas do uruguai

.

Esse é o galpão que cultuamos

Esse é o galpão que queremos

Esse é o galpão que erguemos

E o galpão que conservamos

Como dizia rui ramos

Velho tribuno imponente

Um pedaço de presente

E um pedaço de passado

E futuro enraizado

No subsolo da gente

.

Essa legenda, essa história

Essa história, essa legenda

Desta rústica vivenda

Da luta demarcatória

Da luta emancipatória

Da velha pátria comum

Não há preconceito algum

No velho galpão campeiro

Ao pé de cujo braseiro

Sempre há lugar pra mais um

.

Tribunal e refeitório

De maulas e milicianos

De charruas e milicianos

Sem pátria nem território

Hoje és, galpão, repertório

Daquelas charlas fraternas

E das lembranças eternas

Das saudades que ficaram

Dos centauros que matearam

Nos teus cepos de três pernas

.

Porém te resta o encargo

Velho galpão ancestral

Legendária catedral

De pátria e de pampa largo

No ritual de mate amargo

Ainda existe cevadura

És um templo na planura

De paz, amor e carinho

Pra iluminar o caminho

Da grande pátria futura

.

Mas se não houver campo aberto

Lá em cima quando eu me for

Um galpão acolhedor

De santa fé bem coberto

Um pingo pastando perto

Só de pensar me comovo

Eu juro pelo meu povo

Nem todo o céu me segura

Retorno a velha planura

Pra ser gaúcho de novo.

 

(retirado, com a devida vénia de "letras.mus.br")

 

publicado por picareta escribante às 07:30
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