Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2014

Momento Poético

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Fumo :

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Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas...
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram... choram...
Há crisântemos roxos que descoram...
Há murmúrios dolentes de segredos...

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu amor pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos..

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Florbela Espanca

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F.E..jpg

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NelitOlivas

 

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Terça-feira, 30 de Dezembro de 2014

Momento Poético

A cidade é um chão de palavras pisadas :
. A cidade é um chão de palavras pisadas a palavra criança a palavra segredo. A cidade é um céu de palavras paradas a palavra distância e a palavra medo. A cidade é um saco um pulmão que respira pela palavra água pela palavra brisa A cidade é um poro um corpo que transpira pela palavra sangue pela palavra ira. A cidade tem praças de palavras abertas como estátuas mandadas apear. A cidade tem ruas de palavras desertas como jardins mandados arrancar. A palavra sarcasmo é uma rosa rubra. A palavra silêncio é uma rosa chá. Não há céu de palavras que a cidade não cubra não há rua de sons que a palavra não corra à procura da sombra de uma luz que não há.
. Ary dos Santos
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Cidade.jpg

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NelitOlivas

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Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2014

Momento Poético

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Verdes Anos :

 
Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.
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Pedro Tamen

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verdes anos.jpg

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NelitOlivas 

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Domingo, 28 de Dezembro de 2014

Momento Poético

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A Vida :

Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
Ó olhos negros como noites, como poços!
Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
Ó puros como o céu! ó tristes como levas
De degredados!

    Ó Quarta-feira de Trevas!

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
Olhos accezos como altares de novena!
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
Lume dos que no mar andam botando as linhas...
Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
Mais os que vão na diligencia pela serra!
Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha...
Que são em preto os Olhos Verdes de Joanninha...
Olhos tranquillos e serenos como pias!
Olhos Christãos a orar, a orar Ave Marias
Cheias de Luz
! Olhos sem par e sem irmãos,
Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
E milagrozos, e misericordiozos,
Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
Ó olhos negros! como o céu das trovoadas...

Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
De que te serve ter uns astros sem eguaes?
Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
O mar a uivar! A espuma verde das marés!
Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
A arder entre clarões de coleras! O orgulho
Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
Quantos suores sem proveito! quantas taças
A trasbordar veneno em espumantes boccas!
Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
E aquella que não sae por ter uzada a saia!
E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
Olha essa procissão que passa: um torturado
De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
E para ser feliz fez todos os esforços...
Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
Como dez annos de prizão maior-cellular!
Olha esse tysico a tossir, á beira-mar...
Olha o bébé que teve Torre de coral
De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas...
Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
Olha esse olhar que têm os homens da politica!
Olha um artista a ler, soluçando, uma critica...
Olha esse que não tem talento e o julga ter
E aquelle outro que o tem... mas não sabe escrever!
Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
Olha um velhinho a carregar com a farinha
E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
Olha a sair a barra a galera _Gentil_
E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão...

Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
Foi para ver, coitada! essa bola de lama
Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
A Terra!

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha...

António Nobre, in 'Só'
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só.jpeg

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NelitOlivas

 

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Sábado, 27 de Dezembro de 2014

Momento Poético

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Amanhece :


Amanhece
esgalha-se o solo
de um pássaro na pauta máxima
dos rapazes dos jornais.
No espelho das privações
tenho uma flor a mais.

Dia-a-dia Eis a vida
que os deuses me venderam
como um lápis de cor
para avivar a dor
da alma que esqueceram.

Com meus danos juntei
o depósito à ordem
de qualquer paraíso
ganhando no inferno
o meu dente de siso.

Amanhece
mais um dia
novo risco de prisão.
A vida prende quem faz
contrabando de poemas
ou melhor de indignação.

Na tristeza literal
desta selecta de mínguas
ganhei a voz natural
de chamar filhos da puta
aos deuses nas suas línguas.

Amanhece
de pontiagudas
carências nas ruas se forma
a movediça teoria.
Pedi o pássaro hora isenta
na clave de sol de manhã.

Não pedi um novo dia.

.

Natália Correia

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amanhece.jpg

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NelitOlivas

 

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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2014

Momento Poético

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O Meu Amor Anda em Fama :

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O meu amor anda em fama
Mesmo assim lhe quero bem
Os olhos do meu amor
Não os vejo em mais ninguém
Eu nunca pensei na vida
Vir um dia a encontrar
A minha vida escondida
Dentro do teu olhar


Eu bem sei que me desdenhas
Mas gosto que seja assim
Que o desdém que por mim tenhas
Sempre é pensares em mim


Se algum dia me deixares
Meu amor por caridade
Entre as coisas que levares
Leva também a saudade

.

Pedro Homem de Melo

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P.H.M..jpg

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NelitOlivas

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Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2014

Momento Poético

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Epístola para os meus medos :

"Sois: os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos."

.

Fiama Hassa Pais Brandão
Epístolas e Memorandos,
Relógio d'Água

1996

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leitura.jpg

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NelitOlivas

 

 

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Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2014

Momento Poético


Lisboa perto e longe

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Lisboa perto e longe :


Lisboa chora dentro de Lisboa Lisboa tem palácios sentinelas. E fecham-se janelas quando voa nas praças de Lisboa -- branca e rota a blusa de seu povo -- essa gaivota. Lisboa tem casernas catedrais museus cadeias donos muito velhos palavras de joelhos tribunais. Parada sobre o cais olhando as águas Lisboa é triste assim cheia de mágoas. Lisboa tem o sol crucificado nas armas que em Lisboa estão voltadas contra as mãos desarmadas -- povo armado de vento revoltado violas astros -- meu povo que ninguém verá de rastos. Lisboa tem o Tejo tem veleiros e dentro das prisões tem velas rios dentro das mãos navios prisioneiros ai olhos marinheiros -- mar aberto -- com Lisboa tão longe em Lisboa tão perto. Lisba é uma palavra dolorosa Lisboa são seis letras proibidas seis gaivotas feridas rosa a rosa Lisboa a desditosa desfolhada palavra por palavra espada a espada. Lisboa tem um cravo em cada mão tem camisas que abril desabotoa mas em maio Lisboa é uma canção onde há versos que são cravos vermelhos Lisboa que ninguem verá de joelhos. Lisboa a desditosa a violada a exilada dentro de Lisboa. E há um braço que voa há uma espada. E há uma madrugada azul e triste Lisboa que não morre e que resiste. .
Manuel Alegre
.

Lisboa.jpg

 

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NelitOlivas

 

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Terça-feira, 23 de Dezembro de 2014

Momento Poético

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Meu Coração Sem Direito :
.
Lá foi o tal coração
Que eu tinha contravontade
Lá foi aquele ladrão
Não sei para que cidade
 
O meu velho coração
Que ficou triste comigo
Por causa desse ladrão
Não volta a ser meu amigo
 
Pobre de quem envelhece
Por fora do coração
Que novo nos aparece
Com uma nova paixão

 

Meu coração sem direito
De bater tão apressado
Anda dentro do meu peito
Onde não cabe coitado
 
Vai-te embora coração
Eu não sou boa morada
Onde mora a solidão
Não há lugar p'ra mais nada.
.
Amália Rodrigues
.
 

Amália.jpg

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NelitOlivas

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Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2014

Momento Poético

Ultimatum :

Mandado de despejo aos mandarins do mundo

Fora tu,
reles
esnobe
plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade
e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
Ultimatum a todos eles
E a todos que sejam como eles
Todos!
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
Que nem te queria descobrir
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo
Vós, anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
Para quererem deixar de trabalhar
Sim, todos vós que representais o mundo
Homens altos
Passai por baixo do meu desprezo
Passai aristocratas de tanga de ouro
Passai Frouxos
Passai radicais do pouco
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa
Descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave
E deitem a chave fora
Sufoco de ter só isso a minha volta
Deixem-me respirar
Abram todas as janelas
Abram mais janelas
Do que todas as janelas que há no mundo
Nenhuma idéia grande
Nenhuma corrente política
Que soe a uma idéia grão
E o mundo quer a inteligência nova
A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
Porque aí está apodrecer a vida
Quando muito é estrume para o futuro
O que aí está não pode durar
Porque não é nada
Eu da raça dos navegadores
Afirmo que não pode durar
Eu da raça dos descobridores
Desprezo o que seja menos
Que descobrir um novo mundo
Proclamo isso bem alto
Braços erguidos
Fitando o Atlântico
E saudando abstratamente o infinito."

ACa.jpeg

.

ultimatum.jpeg

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NelitOlivas

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