Domingo, 30 de Novembro de 2014

Momento Poético

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Um grande Amor :

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Um grande amor não cabe em nenhum verso,

como a vida não cabe num jardim,

como não cabe Deus no Universo

nem o meu coração dentro de mim.

 

A noite é mais pequena do que o luar,

e é mais vasto o perfume do que a flor.

É a onda mais alta do que o mar.

Não cabe em nenhum verso um grande amor.

 

Dizer em verso aquilo que se pensa,

ideia de poeta, ideia louca.

Não é bastante a frase mais extensa,

diz mais o beijo do que diz a boca.

 

Ninguém deve contar o seu segredo.

Versos de amor, só se os fizer assim:

como os pássaros cantam no arvoredo,

como as flores se beijam no jardim.

 

Que verso incomparável, infinito,

feito de sol, de misterioso brilho,

poderia dizer o que, num grito,

diz a mulher quando lhe nasce um filho?

 

E quando sobre nós desce a tristeza,

como desce a penumbra sobre o dia,

uma lágrima triste e sem beleza,

diz mais do que a palavra nua e fria.

 

Redondilha de amor... Para fazê-la,

desse-me Deus a tinta do luar,

a candeia suspensa de uma estrela

e o tinteiro vastíssimo do mar.

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Fernanda de Castro

F.C..jpeg

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NelitOlivas

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Sábado, 29 de Novembro de 2014

Momento Poético

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poema :

.

Era um pássaro alto como um mapa

e que devorava o azul

como nós devoramos o nosso amor.

 

Era a sombra de uma mão sozinha

num espaço impossivelmente vasto

perdido na sua própria extensão.

 

Era a chegada de uma muito longa viagem

diante de uma porta de sal

dentro de um pequeno diamante.

 

Era um arranha-céus

regressado do fundo do mar.

 

Era um mar em forma de serpente

dentro da sombra de um lírio.

 

Era a areia e o vento

como escravos

atados por dentro ao azul do luar.

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cruzeiro seixas

in "áfricas", 1950

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C.S..jpeg

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NelitOlivas

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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2014

Momento Poético

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Não Posso Adiar o Amor :

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Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa, in "Viagem Através de uma Nebulosa"

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A.R.R..jpeg

 

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NelitOlivas

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Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014

Momento Poético

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VIRIATO :

No princípio era o Verbo e a sua fome,
Depois,
O Verbo olhou-se e reparou nos dois
Que trazia no ventre do seu nome.
Contos largos da vida...
Tudo começa nebuloso e oculto.
Cada forma a nascer, já perseguida
Pela sombra incorpórea do seu vulto.
Pastor de ovelhas, simples criatura
A pintar de infinito a sua tela,
O rebanho que eu tinha era a brancura
Dessa inocência original, singela.
No impreciso azul é que eu morava,
Emigrado feliz da minha ausência.
Longe do berço quente que pisava,
Realizava a humana transcendência.
Mas nisto um lobo astuto e desmedido
Uivou ao meu destino em voz de guerra;
E eu de repente ouvi o teu gemido
Dentro de mim, transfigurado em terra!
O meu nome de ibero é Viriato.
O princípio de ti, ó Mãe, sou eu.
Eu é que fiz o acto
De namorar o chão em vez do céu.

Miguel Torga

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M.Torga.jpeg

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NelitOlivas

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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014

Momento Poético

UMA MULHER QUASE NOVA :

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Uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora
.

MÁRIO DIONÍSIO

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mulher.jpeg

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NelitOlivas

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Terça-feira, 25 de Novembro de 2014

Momento Poético

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Varinas : 


Passam varinas com a giga em arco
Sobre a airosa cabeça sobranceira
No chão enlameado da Ribeira
A água negra fez um grande charco;
Lembram a quilha dum barco
As tamancas da peixeira

Saias rodadas são belas
Que o vento alarga e fustiga
São asas de caravelas 
Em corpos de raparigas

As pernas altas são mastros
Que nenhum vento quebranta
Os olhos são negros astros
São faróis em terra santa

Saias verdes, saias finas
Saias rubras, saias pretas
Os cordões são as grilhetas
Dos corpos das ovarinas

Num colar de gaivota
A peixeira de lisboa
Levanta ao sol a canastra 
Da sardinha que apregoa
.
 Fernanda de Castro 

varinas.jpegF.C..jpeg

NelitOlivas

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Segunda-feira, 24 de Novembro de 2014

Momento Poético


Para além de Trafaria :


Minha mãe, haverá mundo
para além da Trafaria?

Não sei, meu filho. Não sei.
Tudo aquilo que sabia
já no meu sangue te dei.

Que serras são estas, mãe,
que não nos deixam ver nada?

São rugas que a Terra tem.
Não maces a tua mãe.
Deixa-me estar descansada.

Ó mãe, que rio é aquele?
Onde nasce e onde morre?

Ó filho, é Deus que o impele.
Entretém-te a olhar para ele.
É um rio. Tem água. Corre.

Quando eu for crescido, mãe,
quero saber e entender.

Ó filho, o supremo bem
é cada qual, com o que tem,
resignar-se e agradecer.
Deus faz tudo pelo melhor.
Não se engana nem se esquece.
De todo o mal, o maior,
seria sempre pior
se Deus assim o quisesse.
Ninguém foge ao seu destino.
Está tudo determinado.
Não penses com desatino.
Dorme, dorme, meu menino,
Um soninho descansado.

António Gedeão

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trafaria.jpeg

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NelitOlivas

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Domingo, 23 de Novembro de 2014

Momento Poético

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A CONCHA  :

      

A minha casa é concha. Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:

Fachada de marés, a sonho e lixos,

O horto e os muros só areia e ausência.      

          

Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O orgulho carregado de inocência

Se às vezes dá uma varanda, vence-a

O sal que os santos esboroou nos nichos.      

             

E telhados de vidro, e escadarias

Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!

Lareira aberta ao vento, as salas frias.         

                

A minha casa... Mas é outra a história:

Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,

Sentado numa pedra de memória.      

                 

Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso (1938)

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concha.jpeg

 .

NelitOlivas

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Sábado, 22 de Novembro de 2014

Momento Poético

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Rêve Oublié :

.

Neste meu hábito surpreendente de te trazer de costas
neste meu desejo irreflectido de te possuir num trampolim
nesta minha mania de te dar o que tu gostas
e depois esquecer-me irremediavelmente de ti

Agora na superfície da luz a procurar a sombra
agora encostado ao vidro a sonhar a terra
agora a oferecer-te um elefante com uma linda tromba
e depois matar-te e dar-te vida eterna

Continuar a dar tiros e modificar a posição dos astros
continuar a viver até cristalizar entre neve
continuar a contar a lenda duma princesa sueca
e depois fechar a porta para tremermos de medo

Contar a vida pelos dedos e perdê-los
contar um a um os teus cabelos e seguir a estrada
contar as ondas do mar e descobrir-lhes o brilho
e depois contar um a um os teus dedos de fada

Abrir-se a janela para entrarem estrelas
abrir-se a luz para entrarem olhos
abrir-se o tecto para cair um garfo no centro da sala
e depois ruidosa uma dentadura velha
E no CIMO disto tudo uma montanha de ouro

E no FIM disto tudo um Azul-de-Prata.
.
António Maria Lisboa, in "Ossóptico e Outros Poemas"

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A.M.L..jpeg

 

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NelitOlivas

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Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

Momento Poético

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A Poesia Vai Acabar :

.

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

 

M.A.P..jpeg

 

NelitOlivas 

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