Domingo, 31 de Março de 2013

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - George Sand

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George Sand ( pseudônimo de Amandine Aurore Lucile Dupin - baronesa de Dudevant ) :

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Desprezo e Receio :

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Já notei que a maior parte dos homens se sente açulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos à ternura e ao afecto. É vê-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos à violência ou à dureza. Raça detestável! Tal preceito mantém-se praticamente inalterável no que respeita ao amor. 
Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade; realidade pavorosa, desesperante, mas inevitável, necessária à subsistência das nossas sociedades, dos governos mais democráticos aos mais despóticos. Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata. 


 

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Sábado, 30 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Lau Siqueira

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Lau Siqueira :

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Figos maduros :

 

  

 


ai de mim
com essa figueira crescendo dentro
sem saber direito o momento da poda
ou da colheita

ai de mim
que não entendo de árvores que não com
preendo direito o que elas dizem o que fa
zem como agem na hora do corte e
depois
na transcendência das figueiras

nem sei se a casca
grossa no caule leitoso
com o tempo terá uma
fibra impermeável

ai de mim
que percorro a mansidão invisível
como um galo cumprindo o ofício
das manhãs

.
(copiado, com a devida vénia, da Revista "O Caixote")

 

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Sexta-feira, 29 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - D.H. Lawrence

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Snake - D.H. Lawrence :

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Cobra: 

(Tradução de Leonardo Fróes)

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Veio uma cobra beber na minha mina
Num dia quente tão quente que eu estava,
Por causa do calor, só de pijama.

.

No odor estranho à sombra larga da escura e grande alfarrobeira
Desci pelos degraus com a moringa
E tive de esperar esperar porque ela havia chegado
       antes de mim na mina.

.

Por uma greta ela desceu pelo flanco do barranco sombrio
E arrastando a languidez cor de terra da barriga molenga até a beira
        da minha mina de pedra
Pousou o papo no seu fundo de pedra
E ali na água que caíra em gotas da bica, numa clareza mínima.
Com a boca aprumada ela se pôs a beber,
Lentos goles sugou além da goela esticada para dentro do corpo
       comprido e lânguido,
Em silêncio total.

.

Antes de mim alguém estava na mina
E eu, sendo o segundo, estava à espera.

.

Ela aí fez como o gado e levantou a cabeça
E me olhou de um modo vago, como faz o gado bebendo,
E brandido a língua bifurcada para fora da boca meditou um momento
E se curvou e bebeu de novo outro gole,
Sendo como era cor de terra, terrosa e áurea por sair do intestino
        flamejante da terra
Nesse dia siciliano de julho, com o Etna fumegando.

.

A voz da minha educação me ditou
Que eu devia matá-la,
Pois na Sicília as cobras pretas só pretas são inofensivas, mas as douradas
      são venenosas.

.

E outras vozes em mim disseram que eu, se fosse homem,
Devia era pegar um pau e esmaga-la e logo acabar com ela.
Mas devo confessar que gostei demais dessa cobra,
Fiquei alegre de a ver como um convidado que veio beber na minha mina
       em sossego
E que partiu apaziguado e pacífico, sem nem agradecer,
Para o intestino flamejante da terra.

.

Foi covardia, não ter ousado matá-la?
Foi perversidade, ter querido conversar com ela?
Foi humildade, sentir-me assim tão honrado?
Eu me senti honrado mesmo.

.

E no entanto aquelas vozes dizendo:
Se não fosse pelo medo você a teria morto.

 

E de fato eu tive medo, tive um medo danado,
Mas mesmo assim ainda fiquei mais honrado
De ela buscar minha hospitalidade provindo
Da porta escura da terra enigmática.

.

Ela bebeu o quanto quis
E sonhadora levantou a cabeça, como alguém que bebeu,
E como noite bifurcada no ar brandiu a língua tão preta,
Parecendo lamber os lábios,
E olhou em volta como um deus, sem ver, no ar,
E devagar virou um pouco a cabeça
E devagar, bem devagar, como num sonho tríplice,
Começou a arrastar seu tamanho lento fazendo
Curvas e escalou de regresso o carcomido barranco.

.

Quando ela enfiou a cabeça naquele horrendo buraco,
Quando lenta se deteve, para acomodar seus ombros de cobra, e entrou
        mais para o fundo,
Uma espécie de pavor, uma espécie de protesto por seu retraimento
        naquele buraco negro,
Sua descida deliberada às trevas, levando atrás de si o próprio corpo,
Agora que ela estava de costas dominou-me.

.

Olhei em volta, larguei minha moringa,
Peguei um pau muito sem jeito
E o joguei com estardalho na mina.

.

Acho que o pau não bateu nela,
Mas de repente a parte sua que ficara detrás convulsionou-se
        em pressa indigna,
Torceu-se como um raio e sumiu
No buraco negro, a greta que era um lábio de terra
        no rosto do barranco que olhei,
No meio-dia ainda intenso, possuído de certo fascínio.

.

E logo lamentei o que fiz.
Que ato vil, pensei, vulgar e reles.
Desprezei a mim mesmo como as vozes da minha maldita
        educação humana.
E pensei no albatroz
E desejei que ela viesse de volta, a minha cobra.

.

Porque de novo ela me pareceu que era um rei,
Um rei no exílio, sem coroa e sem reinado,
A ponto de ser coroado outra vez.

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E foi assim que desperdicei minha chance com um dos pares reais
Da vida.
E é assim que tenho alguma coisa a pagar,
Essa baixeza.

 

 

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Quinta-feira, 28 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Vitorino Nemésio

 

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 VITORINO NEMÉSIO - ARREPENDO-ME DE A METER NUM ROMANCE :

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O poema tem mais pressa que o romance, 
Asa de fogo para te levar: 
Assim, pois, se houver lama que te lance 
Ao corpo quente algum, hei-de chorar. 

Deus fez o poeta por que não descanse 
No golfo do destino e amores no mar: 
Vem um, de onda, cobri-la — e ela que dance! 
Vem outro — e faz menção de me enfeitar. 

Os outros a conspurcam, mas é minha! 
Chicoteá-la vou com a própria espinha, 
Estreitam-me de amor seus braços mornos, 

Transformo seus gemidos em meus uivos 
E torno anéis dos seus cabelos ruivos 
Na raspa canelada dos meus cornos. 

 

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Quarta-feira, 27 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - James Merrill

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James Merrill

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http://youtu.be/OvC-HmpWuwU

 

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C o r p o :
Veja as letras com atenção. Consegue enxergar,
penetrante (à direita do palco), depois flutuante,
depois evitando o confronto – no meio da rua --
como uma oriental meia-lua
o desenha o caminho do ao r
-- como o p, sem resposta, bate à porta do palco?
Observou-o por muito tempo, as palavras falham,
desvanecem-se. Pergunte, agora que o corpo de brilhar
parou, por qual luz essas linhas você vai decorar,
e que representavam o e o p.

 

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Terça-feira, 26 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alfredo Zitarrosa

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La Canción Y El Poema - Alfredo Zitarrosa :

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Hoy que el tiempo ya pasó, hoy que ya pasó la vida,

hoy que me río si pienso, hoy que olvidé aquellos días,

no sé por qué me despierto algunas noches vacías

oyendo una voz que canta y que, tal vez, es la mía.

Quisiera morir –ahora– de amor,

para que supieras cómo y cuánto te quería,

quisiera morir,

quisiera… de amor,

 para que supieras…

.

Algunas noches de paz,

–si es que las hay todavía–

pasando como sin mí por esas calles vacías,

entre la sombra acechante y un triste olor de glicinas,

escucho una voz que canta y que, tal vez, es la mía.

.

Quisiera morir –ahora– de amor,

 para que supieras cómo y cuánto te quería;

quisiera morir,

quisiera… de amor,

para que supieras…

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Segunda-feira, 25 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - André Breton

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L'Union libre - André Breton :

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A UNIÃO LIVRE :

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Minha mulher com o cabelo de fogo de lenha

 

Com pensamentos de relâmpagos de calor

 

De talhe de ampulheta

 

Minha mulher com a talhe de lontra entre os dentes de tigre

 

Minha mulher com a boca de roseta e de buquê de estrelas de última grandeza

 

Com dentes de rastro de camundongo sobre a terra branca

 

Com língua de âmbar e de vidro em atritos

 

Minha mulher com língua de hóstia apunhalada

 

Com a língua de boneca que abre e fecha os olhos

 

Com a língua de inacreditável pedra

 

Minha mulher com cílios de lápis de cor das crianças

 

Com sobrancelhas de borda de ninho de andorinha

 

Minha mulher com têmporas de ardósia de teto de estufa

 

E de vapor nos vidros

 

Minha mulher com espáduas de champanhe

 

E de fonte com cabeças de delfins sob o gelo

 

Minha mulher com pulsos de fósforos

 

Minha mulher com dedos de acaso e de ás de copas

 

De dedos de feno ceifado

 

Minha mulher com axilas de marta e de faia

 

De noite de São João

 

De ligustro e de ninho de carás

 

Com braços de espuma de mar e de eclusa

 

E de mistura do trigo e do moinho

 

Minha mulher com pernas de foguete

 

Com movimentos de relojoaria e de desespero

 

Minha mulher com panturrilhas de polpa de sabugueiro

 

Minha mulher com pés de iniciais

 

Com pés de chaveiros com pés de calafates que bebem

 

Minha mulher com pescoço de cevada perolada

 

Minha mulher com a garganta de Vale d’Ouro

 

De encontro no leito mesmo da torrente

 

Com seios de noite

 

Minha mulher com seios de toupeira marinha

 

Minha mulher com seios de crisol de rubis

 

Com seios de espectro da rosa sob o orvalho

 

Minha mulher com ventre de desdobra de leque dos dias

 

Com ventre de garra gigante

 

Minha mulher com dorso de pássaro que foge vertical

 

Com dorso de mercúrio

 

Com dorso de luz

 

Com a nuca de pedra rolada e de giz molhado

 

E de queda de um copo do qual se acaba de beber

 

Minha mulher com ancas de chalupa

 

Com ancas de lustre e de penas de flecha

 

E de caule de plumas de pavão branco

 

De balança insensível

 

Minha mulher com nádegas de arenito e de amianto

 

Minha mulher com nádegas de dorso de cisne

 

Minha mulher com nádegas de primavera

 

Com sexo de gladíolo

 

Minha mulher com sexo de mina de ouro e de ornitorrinco

 

Minha mulher com sexo de algas e de bombons antigos

 

Minha mulher com sexo de espelho

 

Minha mulher com olhos cheios de lágrimas

 

Com olhos de panóplia violeta e de agulha magnetizada

 

Minha mulher com olhos de savana

 

Minha mulher com olhos d’água para beber na prisão

 

Minha mulher com olhos de madeira sempre sob o machado

 

Com olhos de nível d’água de nível do ar de terra e de fogo.

 

 

 

Tradução: Priscila Manhães e Carlos Eduardo Ortolan


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Domingo, 24 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - José Tolentino Mendonça

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A presença mais pura - JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA :

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Nada do mundo mais próximo mas aqueles a quem negamos a palavra o amor, certas enfermidades, a presença mais pura ouve o que diz a mulher vestida de sol quando caminha no cimo das árvores «a que distância da língua comum deixaste o teu coração?»
A altura desesperada do azul no teu retrato de adolescente há centenas de anos a extinção dos lírios no jardim municipal o mar desta baía em ruínas ou se quiseres os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas as conversas ainda surpreendentemente escolares soletradas em família a fadiga da corrida domingueira pela mata as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado o terror que temos de certos encontros de acaso porque deixamos de saber dos outros coisas tão elementares o próprio nome Ouve o que diz a mulher vestida de sol quando caminha no cimo das árvores «a que distância deixaste o coração?»

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Sábado, 23 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Robert Burns

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Robert Burns :

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MARY MORISON (tradução de Luiz Cardim) :

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Maria, assoma à janela: chegou por fim o momento!

O teu sorriso empobrece os oiros do avarento…

Até me fazia escravo a moirejar noite e dia,

se como prémio tivesse a minha doce Maria!

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Ontem, ao som das violas, a aldeia inteira bailava;

só eu, sem ouvir nem ver, para ti, meu bem, voava…

Fossem loiras ou morenas, nenhuma ali te vencia…

Eu, então, só me queixava Não sois a minha Maria!

.

A quem por ti dera a vida, vais, Maria, enlouquecer?

Ou rasgar-lhe o coração sem culpa de bem-querer?

Se amor por amor não dás, pena tem desta agonia…

Mal ficava ser cruel à minha doce Maria!

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Sexta-feira, 22 de Março de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Feliciano de Castilho

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Hino do trabalho - António Feliciano de Castilho :

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Trabalhar meus irmãos que o trabalho

É riqueza é virtude é vigor

Dentre orquestra da serra e do malho

Brotam vida cidades amor.


No regaço de luxo a opulência

Os cansaços do ócio maldiz

Entre as lidas sorri a indigência

Com pão negro se julga feliz.


Deus incombe ao pecado fadiga

 Até na pena sorri o paternal

 O que vence a preguiça inimiga

Reconquista o Éden terreal.


Trabalhar meus irmãos que o trabalho

É riqueza é virtude é vigor

Dentre orquestra da serra e do malho

Brotam vida cidades amor.


Cai opróbrio no vil ocioso

Que deserda o presente e o provir

Só à noite compete o repouso

Só aos mortos o eterno dormir.


Mar e terra ar e céu tudo lida

Deus a todos pôs nus e deu mãos

Lei suprema o trabalho é na vida

Trabalhar trabalhar meus irmãos.

 

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