Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - André Gide

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André Gide :

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O homem sensato é aquele que se surpreende com tudo.

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O apetite de saber nasce da dúvida. Deixa de acreditar e instrui-te!

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Não se pode, ao mesmo tempo, ser sincero e parecê-lo.

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Não se faz boa literatura com boas intenções nem com bons sentimentos.

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Não se descobrem novas terras sem se largar de vista a costa, durante muito tempo.

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Não pode haver senão vantagem num acordo e prejuízo num conflito.

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Não há problemas; apenas há soluções. O espírito de homem, depois, inventa o problema.

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Invejar a felicidade alheia é loucura: não nos saberíamos servir dela. A felicidade não se quer de confecção, mas sob medida.

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Encontrar uma boa fórmula não basta, trata-se de não a abandonar.

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É em nome da fé que se mata.

publicado por picareta escribante às 07:30
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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Múcio Leão

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Múcio Leão :

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A poesia que desce ao poeta :


Poeta, ser estranho, ser enigmático entre os seres!
Vejo-o, isolado das cores, das formas e das ideias,
Isolado, nessa crepuscular solidão que o acompanha.


E é então que vejo descer sobre ele
Uma como sombra de celestiais eflúvios:
- A Poesia, a Poesia de inesperadas ressonâncias,
A grande Poesia, que é uma exalação indefinível,
Que é um som infinito, vindo de outras esferas,
Que é a comunicação miraculosa de outros seres
e de outras regiões.

publicado por picareta escribante às 07:28
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William S. Burroughs

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A Thanksgiving Prayer - William S. Burroughs :

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dia de ação de graças, 28 de novembro de 1986 :

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agradeço pelo peru selvagem e os pombos passageiros, destinados a virar merda nas saudáveis tripas americanas.

agradeço por um continente a espoliar e envenenar.

agradeço pelos índios por garantirem uma módica dose de desafio e perigo.

agradeço pelas vastas manadas de bisões para matar e depelar e depois deixar as suas carcaças à putrefação.

agradeço pelos troféus de caça de lobos e coiotes.

agradeço pelo sonho americano, por inventar lorotas até que elas brilhem à luz do dia.

agradeço pela klu klux klan. aos policiais que matam negros e os contabilizam. às decentes beatas de igreja com suas mesquinhas, interesseiras, feias e perversas caras.

agradeço pelos adesivos de “mate uma bicha em nome de jesus cristo.

agradeço pela aids de laboratório.

agradeço pela proibição e pela guerra contra as drogas.

agradeço por um país onde a ninguém é permitido cuidar da seus próprios problemas.

agradeço por uma nação de dedos-duros.

agradeço, sim, todas as lembranças – ok, deixa eu ver o que você tem nas mãos!

você foi sempre uma dor de cabeça e uma encheção de saco.

agradeço pela última e maior traição do último e maior sonho dos sonhos humanos.

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(tradução de leo gonçalves)

publicado por picareta escribante às 07:25
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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Felipe Fortuna

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Em seu lugar - Felipe Fortuna :

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Arrumo livros

como lembro os rostos,

de memória. Limpo livros

a me esgueirar

por estantes e frestas,

esgrima. Depois

volto a flagrar as lombadas

queimadas de luz

e de gordura dos dedos

(o corpo continua a penetrar

cada leitura).

Ali estive, aquele ali fui eu,

aqui me reencontro,

estranho antes e depois.

 

Ninguém fala o título:

ele mesmo

soletra a sua inclusão

e se perfila, agora convocado.

Daqui observo, perto e de rapina,

o livro que li e volta para a fila:

sua lombada erguida frente

à dúvida, que não termina.

publicado por picareta escribante às 07:28
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2013

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gustave Flaubert

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Gustave Flaubert :

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"O que o dinheiro faz por nós não compensa o que fazemos por ele."

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"Não desculpo de modo algum aos homens de acção que não vençam, uma vez que o êxito é a única medida do seu mérito."
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"A moral da arte reside na sua própria beleza.
.
"Não escolhemos o assunto (...) o segredo das obras-primas está aí, na concordância do assunto e do temperamento do amor."
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"O autor na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma."
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"Eu não tenho nenhuma coragem, mas procedo como se a tivesse, o que talvez venha dar ao mesmo.
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"A medida de uma alma é a dimensão do seu desejo.
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"Ele andava à roda no seu desejo como o preso no cárcere.
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"O estilo está sob as palavras como dentro delas. É igualmente a alma e a carne de uma obra.
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"Nada é mais humilhante do que ver os tolos vencer naquilo em que fracassámos."
publicado por picareta escribante às 07:34
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Garcia de Resende

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Trovas a Inês de Castro - Garcia de Resende :

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"Estes homens d'onde irão?"

Qual será o coração
tão cru e sem piedade,
que lhe não cause paixão
uma tão grã crueldade
e morte tão sem razão?
Triste de mim, inocente,
que, por ter muito fervente
lealdade, fé, amor
ao príncipe, meu senhor,
me mataram cruamente!

A minha desaventura
não contente d’acabar-me,
por me dar maior tristura
me foi pôr em tant’altura,
para d’alto derribar-me;
que, se me matara alguém,
antes de ter tanto bem,
em tais chamas não ardera,
pai, filhos não conhecera,
nem me chorara ninguém.

Eu era moça, menina,
por nome Dona Inês
de Castro, e de tal doutrina
e virtudes, qu’era dina
de meu mal ser ao revés.
Vivia sem me lembrar
que paixão podia dar
nem dá-la ninguém a mim:
foi-m’o príncipe olhar,
por seu nojo e minha fim.

Começou-m’a desejar
trabalhou por me servir;
Fortuna foi ordenar
dous corações conformar
a uma vontade vir.
Conheceu-me, conheci-o,
quis-me bem e eu a ele,
perdeu-me, também perdi-o;
nunca té morte foi frio
o bem que, triste, pus nele.

Dei-lhe minha liberdade,
não senti perda de fama;
pus nele minha verdade,
quis fazer sua vontade,
sendo mui formosa dama.
Por m’estas obras pagar
nunca jamais quis casar;
pelo qual, aconselhado
foi el-rei qu’era forçado,
pelo seu, de me matar.

Estava mui acatada,
como princesa servida,
em meus paços mui honrada,
de tudo mui abastada,
de meu senhor mui querida.
Estando mui de vagar,
bem fora de tal cuidar,
em Coimbra, d’assossego,
pelos campos do Mondego
cavaleiros vi somar.

Como as cousas qu’hão de ser
logo dão no coração,
comecei entristecer
e comigo só dizer:
“Estes homens onde irão?”
E tanto que perguntei,
soube logo qu’era el-rei.
Quando o vi tão apressado,
meu coração trespassado
foi, que nunca mais falei.

E quando vi que descia,
saí a porta da sala,
devinhando o que queria;
com grão choro e cortesia
lhe fiz uma triste fala.
Meus filhos pus de redor
de mim com grande humildade;
mui cortada de temor
lhe disse: - “Havei, senhor,
desta triste piedade!

“Não possa mais a paixão
que o que deveis fazer;
metei nisso bem a mão,
qu’é de fraco coração
sem porquê matar mulher;
quanto mais a mim, que dão
culpa não sendo razão,
por ser mãe dos inocentes
qu’ante vós estão presentes,
os quais vossos netos são.

“E tem tão pouca idade
que, se não forem criados
de mim, só com saudade
e sua grande orfandade
morrerão desamparados.
Olhe bem quanta crueza
fará nisto Voss’Alteza,
e também, senhor, olhai
pois do príncipe sois pai,
não lhe deis tanta tristeza.

“Lembre-vos o grand’amor
que me vosso filho tem,
e que sentir grã dor
morrer-lhe tal servidor
por lhe querer grande bem.
Que, s’algum erro fizera,
fora bem que padecera
e qu’estes filhos ficaram
orfãos tristes e buscaram
quem deles paixão houvera;

“Mas, pois eu nunca errei
e sempre mereci mais,
deveis, poderoso rei,
não quebrantar vossa lei,
que, se morro, quebrantais.
Usai mais de piedade
que de rigor nem vontade,
havei dó, senhor, de mim,
não me deis tão triste fim,
pois que nunca fiz maldade!”

El-rei, vendo como estava,
houve de mim compaixão
e viu o que não olhava:
qu’eu a ele não errava
nem fizera traição.
E vendo quão de verdade
tive amor e lealdade
ao príncipe, cuja são,
pôde mais a piedade
que a determinação;

Que, se m’ele defendera
que seu filho não amasse,
e lh’eu não obedecera,
então com razão pudera
dar-m’a morte qu’ordenasse;
mas vendo que nenhum’hora,
dês que nasci até’gora,
nunca disso me falou,
quando se disto lembrou,
foi-se pela porta fora.

Com seu rosto lagrimoso,
co propósito mudado,
muito triste, mui cuidoso,
como rei mui piedoso,
mui cristão e esforçado.
Um daqueles que trazia
consigo na companhia,
cavaleiro desalmado,
de trás dele, mui irado,
estas palavras dizia:

“-Senhor, vossa piedade
é digna de reprender,
pois que, sem necessidade,
mudaram vossa vontade
lágrimas duma mulher.
E quereis qu’abarregado,
com filhos, como casado,
estê, senhor, vosso filho?
De vós mais me maravilho
que dele, qu’é namorado.

“Se a logo não matais,
não sereis nunca temido
nem farão o que mandais,
pois tão cedo vos mudais
do conselho qu’era havido.
Olhai quão justa querela
tendes, pois, por amor dela,
vosso filho quer estar
sem casar e nos quer dar
muita guerra com Castela.

“Com sua morte escusareis
muitas mortes, muitos danos;
vós, senhor, descansareis,
e a vós e a nós dareis
paz para duzentos anos.
O príncipe casará
filhos de benção terá,
será fora de pecado;
qu’agora será anojado,
amanhã lh’esquecerá.”

E ouvindo seu dizer,
el-rei ficou mui torvado
por em tais estremos ver,
e que havia de fazer
ou um ou outro, forçado.
Desejava dar-me vida,
por lhe não ter merecida
a morte nem nenhum mal:
sentia pena mortal
por ter feito tal partida.

E vendo que se lhe dava
a ele tod’esta culpa,
e que tanto o apertava,
disse àquele que bradava:
“-Minha tenção me desculpa.
Se o vós quereis fazer,
fazei-o sem mo dizer,
qu’eu nisso não mando nada,
nem vejo essa coitada
por que deva de morrer.”

Fim

Dous cavaleiros irosos,
que tais palavras lh’ouviram,
mui crus e não piedosos,
perversos, desamorosos,
contra mim rijo se viram;
com as espadas na mão
m’atravessam o coração,
a confissão me tolheram:
este é o galardão
que meus amores me deram.

publicado por picareta escribante às 07:28
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sylvia Plath

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"The Stones" - Sylvia Plath :

.

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As Pedras :

.

Esta é a cidade onde os homens se consertam.
Repouso num grande leito.
O raso e azul círculo celeste

.

Voou como o chapéu de uma boneca
Quando abandonei a luz. Entrei
No estômago da indiferença, o armário mudo.

.

O maior dos almofarizes diminuiu-me.
Tornei-me num seixo imóvel.
As pedras da barriga estavam tranquilas,

.

A lápide (2) serena, nada a perturbava.
Só a abertura da boca (3) sibilava,
Grilo inoportuno

.

Numa pedreira de silêncios.
As pessoas da cidade ouviram-no.
Procuraram as pedras, taciturnas e separadas,

.

A abertura da boca gritava as localizações.
Ébria como um feto
Sugo a polpa das trevas.

.

Os tubos de alimentação abraçam-me. Esponjas beijam-me e retiram-me os líquenes.
O joalheiro manuseia o cinzel, descerra
E força a abertura de um olho de pedra.

.

Isto é o pós-inferno: vejo a luz.
Um vento abre a câmara
Do ouvido, esse velho preocupado.

.

Água apazigua o lábio de sílex,
E a luz do dia derrama a sua monotonia na parede.
Os enxertadores estão alegres,

.

Aquecendo as tenazes, içando os delicados martelos.
Uma corrente agita os fios
Volt após volt. Pontos remendam-me as fissuras.

.

Um operário passa trazendo um torso róseo.
Corações enchem os armazéns.
Esta é a cidade das peças sobresselentes.

.

As minhas pernas e braços enfaixados emanam um doce cheiro a borracha.
Aqui eles recompõem cabeças ou qualquer membro.
Às sextas, as crianças vêm

.

Trocar os seus ganchos por mãos.
Os mortos deixam olhos para outros.
O amor é o uniforme da minha enfermeira calva.

.

O amor é o osso e tendão da minha praga.
O vaso, reconstruído, abriga
A rosa esquiva.

.

Dez dedos moldam uma taça para sombras.
Os meus remendos fazem comichão. Não se pode fazer nada, incomoda, mas
Ficarei como nova.

.

(2) Trocadilho: head-stone significa lápide e Plath também insinua, “cabeça de pedra”.
(3) Literalmente, é a abertura da boca numa máscara (mouth-hole).

.

Tradução de David Furtado

publicado por picareta escribante às 07:29
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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ruy Belo

.

Tu estás aqui - Ruy Belo :

.

.

 
Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
                                                                                                    o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
                                                                                                  outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso 
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
                                                                                        que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
                                                                                        outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto 
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto 
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos 
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
                                                                                                   a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui 
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
publicado por picareta escribante às 07:26
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Chistopher Marlowe

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A Passionate Sheperd To His Love - CHRISTOPHER MARLOWE :

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El pastor apasionando a su amada :

.
ven a vivir conmigo y mi amor sé ;
todos los placeres hemos de probar,
valles, prados,colinas y campos
bosques e intrincadas montañas nos dejaran.

Y nos sentaremos en las rocas,
viendo los pastores a sus rebaños alimentar,
por riachuelos , en cuyas caidas
madrigales de melosiosas aver oiremos cantar.

Haremos yacijas de rosas,
y de fragantes ramilletes , un millar;
y un sombrero de flores y , con hojas de mirto,
una faldilla vamos a bordar.

Un vestido hecho con la mas fina lana,
sacada de nuestras hermosas ovejas;
para el frio, ajustadas zapatillas
y de oro puro sus hebillas.

Los pretendientes del pastor bailaran y cantaran
para tu regocijo cada mañana de mayo;
si estos deleites te logran conmover,
entonces vive con migo y mi amor sé.

publicado por picareta escribante às 07:32
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Augusto Frederico Schmidt

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Destino da Beleza - Augusto Frederico Schmidt :

.

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Quando o tempo desfaz as formas perecíveis

Para onde vai, qual o destino da Beleza,

Qual a expressão da própria identidade ?

.

Na hora da libertação das formas,

Qual o destino da Beleza, que as formas puras realizaram ?

.

Qual o destino do que é eterno

Mas está consignado no efémero,

No momento inexorável da purificação ?

.

A Beleza não morre.

Não importa que o seu caminho

Seja visitado pela destruição, que é a própria lei,

E pelas sombras.

.

A Beleza não morre,

Deus recolhe as flores que o tempo desfolha;

Deus recolhe a música das fisionomias

que o tempo escurece e silencia;

Deus recolhe o que venceu as substâncias frágeis

E realizou o milagre do Espírito Impassível

no movimento e na matéria.

Deus recolhe a Beleza, como o corpo absorve a sua sombra

Na hora em que a luz realiza o seu destino de unidade e pureza.

.

publicado por picareta escribante às 07:35
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