Quarta-feira, 31 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Antonio Cabral

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Antonio Cabral :

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A uma Oliveira

Velha oliveira, ó irmã do tempo e do silêncio,
algo de ti se me tornou hoje perceptível;
algo que eu não conhecia e me fez parar
na ténue sombra que teces no caminho;
algo que é uma doce corola de contacto.

Já os passos da luz se afastam na colina
e um rumor de pérolas quebradas
desce, lentamente desce por toda a serrania.
Já as aves tuas amigas procuram na folhagem
a doçura acumulada nos favos da noite.
E também já são horas
de nós os homens, nós os que passamos,
suspendermos as cítaras do pensamento.

Entretanto, ó canção do crepúsculo, velha oliveira,
eu paro sob os longos cílios da tua ramagem.
Paro e, ao sentir nas mãos o teu enrugado tronco,
e, nos olhos, a serenidade das tuas folhas,
começo a entender uma bela mensagem:
a paz, ah a paz!, a rosa da paz.

É como se uma gota de azeite descesse,
brandamente descesse pelas coisas.
publicado por picareta escribante às 07:33
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Terça-feira, 30 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Boris Pasternak

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Boris Pasternak :

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Ser famoso...


Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.


O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.


Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.


Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.


Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como a paisagem
Oculta a nuvem com recato.


Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Mas tu não deves separar
Teu sucesso do teu fracasso.


Não deves renunciar a um mínimo
pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer

Vivo, e viver até o fim.

publicado por picareta escribante às 07:26
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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Cristovan Pavia

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Ao meu cão Fixe - Cristovan Pavia :

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Agora os crepúsculos são frios
E a brisa traz a humidade das folhas mortas...

Tu, meu cão, cerras os olhos e dormes...

Vem aí Dezembro...
Tenho saudades do teu silêncio,
Do teu focinho macio e quente,
Do teu olhar,
Meu amigo!

Oh! meu cão, para ti ainda sou o teu dono menino
E és o único que me acompanha nos passeios mágicos...

Depressa lá estarei contigo. Dezembro aproxima-se...
Agora os crepúsculos são frios...

publicado por picareta escribante às 07:34
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Domingo, 28 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Oscar Wilde

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Loucos e Santos - Oscar Wilde :

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Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

publicado por picareta escribante às 07:29
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Sábado, 27 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Casimiro de Abreu

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Meus oito anos - Casimiro de Abreu :

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Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida,
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor!

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia,
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias de minha infância
Oh! meu céu de primavera!
Que doce à vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
- Pés descalços, braços nus -.
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
- Que amor, que sonhos, que flores -
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

 

publicado por picareta escribante às 07:33
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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Carmen Cardin

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Fruto Verde - Carmen Cardin :

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Desejável é o fruto, adorável é o sabor

(Romance esse eu queria ter vivido!)
Mais vale não se manifestar o amor
Que ser ele um desejo proibido.
Como um anelo filosófico, profundo
Tal uma ânsia pungente e vital
Assim é o querer, sentimento oriundo
Do Bem, o fôlego da vida, do mal!
Eu seria a primorosa companheira,
Tu serias a inspiração altaneira,
Se o nosso utópico sonho fosse verdade...
Entretanto, a realidade é diferente:
Ainda em nosso mundo não se fez presente
O esplendoroso alvorecer da Felicidade!
publicado por picareta escribante às 07:30
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Quinta-feira, 25 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jonathan Swift

 

"A Description of the Morning" - Jonathan Swift :

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Now hardly here and there a hackney-coach
Appearing, show'd the ruddy morn's approach.
Now Betty from her master's bed had flown,
And softly stole to discompose her own.
The slip-shod 'prentice from his master's door
Had par'd the dirt, and sprinkled round the floor.
Now Moll had whirl'd her mop with dext'rous airs,
Prepar'd to scrub the entry and the stairs.
The youth with broomy stumps began to trace
The kennel-edge, where wheels had worn the place.
The small-coal man was heard with cadence deep;
Till drown'd in shriller notes of "chimney-sweep."
Duns at his lordship's gate began to meet;
And brickdust Moll had scream'd through half a street.
The turnkey now his flock returning sees,
Duly let out a-nights to steal for fees.
The watchful bailiffs take their silent stands;
And schoolboys lag with satchels in their hands.

publicado por picareta escribante às 07:34
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Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Feijó

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(Onde moras ? Onde moras?) Poema Ideal - António Feijó :

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Onde moras? Onde moras?
Se adivinhasse onde moras
¾ Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela,
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas.
Sem ti a vida que importa?
A vida, nem penso nela...
Veria passar as horas,
As minhas últimas horas,
Em frente da tua porta,
Olhando a tua janela...

publicado por picareta escribante às 07:27
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Terça-feira, 23 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - T.S. Eliot

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"The Naming of Cats"-T.S. Eliot :

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_______________
O nome dos Gatos - Por T.S.Eliot
________________
Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro,
E não um jogo que entretenha os indolentes;
Pode julgar-me louco como o chapeleiro,
Mas a um gato se dá TRÊS NOMES DIFERENTES.
Primeiro, o nome por que o chamam diariamente,
Como Pedro, Augusto, Belarmino ou Tomás
Como Victor ou Jonas, Jorge ou Clemente
- Enfim nomes discretos e bastante usuais.
Há mesmo os que supomos soar com som mais brando,
Uns para damas, outro para cavalheiros,
Como Platão, Admetus, Electra, Demétrio
Mas são todos discretos e assaz corriqueiros
Mas a um gato cabe dar um nome especial
Um que lhe seja próprio e menos correntio:
Se não como manter a cauda em vertical,
Distender os bigodes e afagar o brio?
Dos nomes desta espécie é bem restrito o quorum,
Como Quaxo, Munkunstrap ou Coricopato,
Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum...
Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.
Mas, acima e além, há um nome que ainda resta,
Este de que jamais ninguém cogitaria,
O nome que nenhuma ciência exata atesta
SOMENTE O GATO SABE, mas nunca o pronuncia.
Se um gato surpreenderes com ar meditabundo,
Saibas a origem do deleite que o consome:
Sua mente se entrega ao êxtase profundo
De pensar, de pensar, de pensar em seu nome:
Seu inefável afável
Inefanefável
Abismal, inviolável e singelo Nome.
***
Extraído do "Livro do velho Gambá sobre gatos travessos".
T.S.Eliot, Obra Completa, vol 1, Poesia.
Tradução de Ivan Junqueira
publicado por picareta escribante às 07:35
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Segunda-feira, 22 de Outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Renato Russo

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Perfeição - Renato Russo :

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Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar eros e thanatos
Persephone e hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e seqüestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
(a lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso - com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também não podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

publicado por picareta escribante às 07:31
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