Domingo, 30 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ludovico Ariosto II

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l'Orlando Furioso - Ludovico Ariosto :

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CANTO I (continuação) :

13.
a Dama desviou a montaria
e foi-se a rédea solta pela mata,
Sem procurar a mais segura via,
Onde o arvoredo menos se dilata.
Tresloucada, a tremer, pálida, a guia
Dá ao palafrém, que a esmo as trilhas cata.
Acima e abaixo, a vasta selva inteira
Percorreu e foi ter a uma ribeira.

14.
Junto à ribeira Ferraú mostrou-se
Coberto de poeira e suor copioso.
O que da frente de batalha o trouxe
Foram ganas de água e de repouso.
Depois, a contragosto, lá ficou-se,
Porque, sobre estouvado, sequioso,
Das mãos caiu-lhe ao rio o elmo, ao beber,
E não mais o alcançava reaver.

15.
Com quantas forças tem, ergue clamor,
Posta em fuga, a donzela apavorada;
Salta o mouro, escutando tal rumor,
E a reconhece, logo na chegada.
Ainda que, por obra do temor,
Mostrasse a face pálida e turvada,
É aquela de quem vai buscando novas,
É angélica, não há querer mais provas.

16.
Cavaleiro cortês, quiçá rival
Dos primeiros no estimar igual beleza;
Se elmo lhe falta, o que inda o braço val
Logo à dama oferece por defesa.
A arma empunha e feroz corre aonde o mal
Suspeita então rinaldo tal surpresa.
Eram já os cavaleiros conhecidos
De vista e d'armas, desde tempos idos.

17.
Apeados ali, sem que lhes valha
Couraça ou malha miúda como escudo
(A espada de qualquer tão rijo talha
Quem em bigorna faria corte agudo),
Encetam crudelíssima batalha.
A dama ao palafrém manda contudo
Que aperte o pé, com quantas força tenha,
E em campos, matagais, assim se embrenha.

18.
Largo tempo forceja um por ter mão
Do outro, mas nenhum ao outro abala,
Pois ambos consumados mestres são
De perícia na espada, ao menejá-la.
Afinal o senhor de Montalvão
Dirige ao cavaleiro hispano a fala
Como alguém cujo peito se acha em fogo
Abrasador, que rompe em desafogo.

Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.
publicado por picareta escribante às 07:32
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Sábado, 29 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ludovico Ariosto I

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l' Orlando Furioso - Ludovico Ariosto :

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CANTO I
1.
Damas e paladinas, armas e amores,
As cortesias e as façanhas canto
Do tempo em que o mar d'África os rigores
Dos mouros trouxe, e França esteve em pranto;
Ira os movia e juvenis furores
De Agramante seu rei, disposto a tanto,
Que ousou vingar a morte de Troiano,
Em Carlos, rei e imperador romano.

2.
Hei de dizer de Orlando, juntamente,
O que nunca se disse, em prosa ou rima:
Que ficou, por amor, louco fremente,
Pondo a perder de homem cordato a estima;
Isto, se aquela que me faz demente
E o pouco engenho me corrói qual lima,
Assentir em poupar-me em tal medida,
Que eu possa dar a obra prometida.

3.
Dignai-vos, ó hercúlea prole Estense,
Ornamento e esplendor do tempo nosso,
Hipólito, aceitar, pois vos pertence,
A oferta do criado humilde vosso.
O que vos devo em grande parte vence
Quando co' o verbo e a pena pagar posso;
Nem por vos dar tão pouco ingrato sou,
Pois do que posso dar, tudo vos dou.

4.
Dentre os grandes heróis, se ora me ouvis,
Vereis lembrado o nome sobranceiro
Que de vossa linhagem foi raiz,
Rogério, de alta estirpe avô primeiro;
E se benignamente consentis
Em dar-me, por um pouco, ouvido inteiro,
Deixando por meu canto altos cuidados,
Seus feitos achareis aqui exaltados.

5.
De Angélica formosa enamorado
Ficara Orlando, e por amores seus
Em Tartária, Índia e Média havia deixado
Inumeráveis e imortais troféus.
Ei-lo agora retornado
Ao ocidente, ao pé dos Pirineus,
Aos arraiais de França e de Alemanha,
Convocados de Carlos à campanha,

6.
Para que os reis Marsílio e Agramante
Cara custasse a estulta confiança
Com que um de África todo o homem prestante
Trouxera armado com espada e lança,
E outro de Espanha se pusera adiante
Por oprimir o lindo chão de França.
Voltava então Orlando ao pátrio solo,
Mas logo a volta o pôs em desconsolo.

7.
Pois logo sua amada ali perdia:
Que o juízo humano tantas vezes erra!
Aquela pela qual lutado havia,
Da Eólia à Espéria, em tão renhida guerra,
Ora a perde entre amiga companhia,
Sem a espada brandir, em sua terra.
É sábio imperador quem, tendo em mira
Grave incêndio extinguir, assim lha tira.

8.
Desavença recente separara
Rinaldo e o conde Orlando, que é seu primo:
Da mesma dama, a formosura rara
Os abrasava, pela graça e o mimo.
Carlos, a quem o pleito desgostara,
Pois desss bravos lhe tolhia o arrimo,
A donzela, que aos dois indispusera,
Deu em custódia ao duque de Baviera;

9.
E em prêmio a reservou ao que se houvesse
Com mais valor naquela grã jornada,
Ao que mais infiéis ali abatesse
Pelo valor do braço e forte espada.
Mal fundada esperança, que fenece
Ao pôr-se em fuga a gente batizada.
Força é que então com outros mil se renda
O duque e, preso, deixe ao léu a tenda.

10.
Ali se achara dantes a donzela
Ao vencedor em prêmio prometida.
Durante o embate, ela subira à sela
E, sem que suspeitassem, foi partida.
Sentiu - veio um presságio esclarecê-la -
Que a Fortuna aos cristãos baldara a lida.
Assim, entrou num bosque, e num carreiro
Encontrou, vindo a pé, um cavaleiro.

11.
Vestia couraça e tinha na cabeça
O elmo; ao flanco, espada; à mão, escudo;
O bosque atravessava mais depressa
Que em prova de corrida aldeão rudo.
Tímida pastorinha não se apressa
De serpente a fugir bote sanhudo,
Como Angélica as rédeas desviou
Logo que caminhante divisou.

12.
Era esse paladim, nobre e galhardo,
Filho de Amon, senhor de Montalvão.
Tinha perdido seu corcel, Baiardo,
Pouco havia, em insólita ocasião.
Reconheceu a dama, e, como dardo,
O amor lhe trespassou o coração.
Vendo-lhe ao longe o angélico semblante
Caiu do amor nos laços nesse instante.

Tradução de Pedro Garcez Ghirardi.
publicado por picareta escribante às 07:29
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Sexta-feira, 28 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Camilo Pessanha

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Água morrente - Camilo Pessanha :

 

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Meus olhos apagados,

 

Vede a água cair.

 

Das beiras dos telhados,

 

Cair, sempre cair.

 

 

Das beiras dos telhados,

 

Cair, quase morrer...

 

Meus olhos apagados,

 

E cansados de ver.

 

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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Paul Celan

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Parla anche tu - Paul Celan :

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Fala Também TuFala também tu,
fala em último lugar,
diz a tua sentença.

Fala —
Mas não separes o Não do Sim.
Dá à tua sentença igualmente o sentido:
dá-lhe a sombra.

Dá-lhe sombra bastante,
dá-lhe tanta
quanta exista à tua volta repartida entre
a meia-noite e o meio-dia e a meia-noite.

Olha em redor:
como tudo revive à tua volta! —
Pela morte! Revive!
Fala verdade quem diz sombra.

Mas agora reduz o lugar onde te encontras:
Para onde agora, oh despido de sombra, para onde?

Sobe. Tacteia no ar.
Tornas-te cada vez mais delgado, irreconhecível, subtil!
Mais subtil: um fio,
por onde a estrela quer descer:
para em baixo nadar, em baixo,
onde pode ver-se a cintilar: na ondulação
das palavras errantes.

Paul Celan, in "De Limiar em Limiar"
Tradução de João Barrento e Y. K. Centeno

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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sully Prudhomme

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Le vase brisé - Sully PRUD'HOMME :

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O VASO PARTIDO

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe sutiu, roçou-o apenas
Pois nem um ruído revelou.

 

Mas a fenda persistente,
Mordendo-o sempre sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

 

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia,
Não toquem, não, que se quebrou.

 

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor,
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

 

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal, fino e profundo,
Já se quebrou: não toquem, não.

Sully Prudhomme
Trad. Guilherme de Almeida

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Terça-feira, 25 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Francisco Quevedo

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SONETO AMOROSO DEFENDENDO O AMOR - FRANCISCO QUEVEDO :

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É gelo abrasador, fogo gelado,
é ferida que dói e não se sente,
é um sonhado bem, um mal presente,
é um breve descanso fatigado;


é um sossego que nos dá cuidado,
um cobarde com nome de valente,
solitário andar por entre gente,
um amar nada mais que ser amado;


é uma liberdade encarcerada,
que dura até ao último momento;
doença que piora se é tratada.


Este o menino Amor, o seu tormento.
Vede a amizade que terá com nada
o que em tudo vai contra o seu intento!

Francisco Quevedo, in 'Antologia Poética'
Tradução de José Bento

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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - E. E. Cummings

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I Carry Your Heart With Me - E. E. Cummings :

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Eu carrego o seu coração comigo

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Eu o carrego no meu coração

Nunca estou sem ele

Onde quer que vá, você vai minha querida

E o que quer que eu faça sozinho

foi você, minha querida

Não temo o meu destino


 

Porque você é o meu destino, meu doce

Eu não quero o mundo por mais belo que seja

Porque você é meu mundo, minha verdade

Este é o maior dos segredos que ninguém sabe


 

Você é a raiz da raiz

O botão do botão

E o céu do céu

De uma árvore chamada vida

Que cresce mais alto do que a alma pode esperar

Ou a mente pode esconder

E esse é o milagre

Que mantém as estrelas à distância

Eu carrego o seu coração comigo

Eu o carrego no meu coração.

publicado por picareta escribante às 07:33
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Domingo, 23 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Gonçalves Dias

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Como eu te amo ! - Gonçalves Dias :

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Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho numa flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá no extremo do horizonte aponta;

Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite a mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vai e vem a nau flutua;

Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora,
O manso vento que nos bosques rondeia,
O sussurro da fonte que passeia,
Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncios e cores, perfumes e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus.

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-te os lábio meus, - mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em tí. - Por tudo quanto sofro,
Por quando já sofri, por quanto ainda
Me resta sofrer, por tudo eu te amo!

publicado por picareta escribante às 07:29
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Sábado, 22 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ugo Foscolo

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Alla sera - Ugo Foscolo :

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À Tarde

Talvez por seres, para mim, a imagem
da quietude fatal, vem, sê bem-vinda.
Ó Tarde! E - quando te corteja a aragem
e os cirros estivais e quando, ainda,

trazes do ar nebuloso trevas que agem
sobre o mundo, ao tremor de luz que finda,
e me acolhes, na mais secreta viagem
da alma - eu te sinto, assim tão suave e linda.

Conduzes minha mente, numa prece,
ao eterno vazio; e o tempo ruim
foge e leva consigo e faz que cesse

a ânsia que me envolvia. A paz, enfim!
E, enquanto a paz me deixas, adormece
o espírito feroz que há dentro em mim.

publicado por picareta escribante às 07:29
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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Tomás António Gonzaga

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Tomás António Gonzaga :

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Lira III


Tu não verás, Marília, cem cativos

tirarem o cascalho e a rica terra,

ou dos cercos dos rios caudalosos,

ou da minada serra.



Não verás separar ao hábil negro

do pesado esmeril a grossa areia,

e já brilharem os granetes de oiro

no fundo da bateia.



Não verás derrubar os virgens matos,

queimar as capoeiras inda novas,

servir de adubo à terra a fértil cinza,

lançar os grãos nas covas.



Não verás enrolar negros pacotes

das secas folhas do cheiroso fumo;

nem espremer entre as dentadas rodas

da doce cana o sumo.



Verás em cima da espaçosa mesa

altos volumes de enredados feitos;

ver-me-ás folhear os grandes livros,

e decidir os pleitos.



Enquanto revolver os meus consultos,

tu me farás gostosa companhia,

lendo os fastos da sábia, mestra História,

e os cantos da poesia.



Lerás em alta voz, a imagem bela;

eu, vendo que lhe dás o justo apreço,

gostoso tornarei a ler de novo

o cansado processo.



Se encontrares louvada uma beleza,

Marília, não lhe invejes a ventura,

que tens quem leve à mais remota idade

a tua formosura.

publicado por picareta escribante às 07:29
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