Sábado, 30 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Bruno Tolentino

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Noturno - Bruno Tolentino :

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Não sou o que te quer. Sou o que desce
a ti, veia por veia, e se derrama
à cata de si mesmo e do que é chama
e em cinza se reúne e se arrefece.


Anoitece contigo. E me anoitece
o lume do que é findo e me reclama.
Abro as mãos no obscuro. Toco a trama
que lacuna a lacuna amor se tece.


Repousa em ti o espanto que em mim dói,
norturno. E te revolvo. E estás pousada,
pomba de pura sombra que me rói.


E mordo teu silêncio corrosivo,
chupo o que flui, amor, sei que estou vivo
e sou teu salto em mim, suspenso em nada.

publicado por picareta escribante às 07:28
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Sexta-feira, 29 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Anna Ahmatova

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As a White Stone... - Anna Ahmatova :

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Como Pedra Branca :

Como pedra branca no fundo do poço
dentro de mim está uma memória.
Nem quero afastá-la, nem posso:
é sofrimento e é prazer e glória.
Julgo que quem olhar-me bem de perto
dentro em meus olhos logo pode vê-la.
E ficará mais triste e pensativo
que alguém que escute uma anedota obscena.
Eu sei que os deuses metamorfoseavam
os homens em coisas sem tirar-lhes alma.
Para que o espante da tristeza dure sempre,
em coisa da memória te mudei.
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Tradução de Jorge de Sena
publicado por picareta escribante às 07:36
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Quinta-feira, 28 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Jorge Luis Borges

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Los Justos - Jorge Luis Borges :

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Os Justos

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Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

publicado por picareta escribante às 07:34
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Quarta-feira, 27 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Marceline Desbordes

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Les Séparés - Marceline Desbordes Valmore :

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N'écris pas. Je suis triste, et je voudrais m'éteindre.
Les beaux étés sans toi, c'est la nuit sans flambeau.
J'ai refermé mes bras qui ne peuvent t'atteindre,
Et frapper à mon coeur, c'est frapper au tombeau.
N'écris pas !

N'écris pas. N'apprenons qu'à mourir à nous-mêmes.
Ne demande qu'à Dieu... qu'à toi, si je t'aimais !
Au fond de ton absence écouter que tu m'aimes,
C'est entendre le ciel sans y monter jamais.
N'écris pas !

N'écris pas. Je te crains ; j'ai peur de ma mémoire ;
Elle a gardé ta voix qui m'appelle souvent.
Ne montre pas l'eau vive à qui ne peut la boire.
Une chère écriture est un portrait vivant.
N'écris pas !

N'écris pas ces doux mots que je n'ose plus lire :
Il semble que ta voix les répand sur mon coeur ;
Que je les vois brûler à travers ton sourire ;
Il semble qu'un baiser les empreint sur mon coeur.
N'écris pas !

publicado por picareta escribante às 07:31
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Terça-feira, 26 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Federico Garcia Lorca

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Romance sonâmbulo - Federico Garcia Lorca :

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Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

publicado por picareta escribante às 07:33
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Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Afonso Lopes Vieira

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BARTOLOMEU MARINHEIRO - Afonso Lopes Vieira :

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Era uma vez
um capitão português
chamado Bartolomeu
que venceu
um gigante enorme e antigo.
Bartolomeu, em menino
pequenino,
ia para o pé do mar...

 

e ficava a olhar
o mar...
E Bartolomeu cismava...
Ó que lindo, ó que lindo,
o mar, e a sua voz profunda e bela!
Uma nuvem no céu, era uma caravela
que novos céus andava descobrindo...

Ó que lindo, os navios,
que vão suspensos entre a água e o céu,
com velas brancas e mastros esguios,
e com bandeiras de todas as cores!
Bartolomeu cismava
porque ouvia
tudo o que o mar contava
e lhe dizia.

publicado por picareta escribante às 07:34
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Domingo, 24 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Aleksandr Pushkin

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The Flower - Aleksandr Sergeevich Pushkin :

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A FLOR (Trad., André)

Vejo uma flor seca, sem ar

Cá esquecida em um caderno,

E meu espírito prosterno

Num esquisito meditar:

 

Floriu quando? Onde? Em que estaçāo?

E postergou-se? E é estranha

Ou amiga a māo que a apanha?

E a pôs aqui por que razāo?

 

Pra recordar um encontro amável

Ou uma separaçāo funesta,

Ou um passeio solitário

Num sítio, à sombra da floresta?

 

E ele está vivo, ela também?

E a que refúgio se retêm?

Ou eles ambos já mirraram

Como esta flor que aqui deixaram?

publicado por picareta escribante às 07:34
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Sábado, 23 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Ramos Rosa

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Estou vivo e escrevo sol - António Ramos Rosa :

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Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

publicado por picareta escribante às 07:28
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Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Eugenio Montejo

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 :

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Meu amor (Eugenio Montejo)

Em outro corpo vai meu amor por esta rua,
sinto seus passos embaixo da chuva,
caminhando, sonhando, como em mim já faz tempo…
Há ecos de minha voz em seus sussurros
posso reconhecê-los.
Tem agora uma idade que era a minha,
uma lâmpada que se acende ao nos encontrarmos.
Meu amor que se embeleza com o mar das horas,
meu amor no terraço de um café
com um hibisco branco entre as mãos,
vestida à antiga do novo milênio.
Meu amor que seguirá quando me for,
com outro riso e outros olhos,
como uma chama que deu um salto entre duas velas
e ficou iluminando o azul da Terra.

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(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

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Nota : Este Poema não corresponde ao do vídeo, mas não encontrei tradução (fiável) para aquele, nem vídeo para este.

Picareta Escribante

publicado por picareta escribante às 07:29
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Quinta-feira, 21 de Junho de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sebastião da Gama

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Pelo sonho é que vamos - Sebastião da Gama :

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Pelo sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos,

basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria

ao que desconhecemos

e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

─ Partimos. Vamos. Somos.

publicado por picareta escribante às 07:28
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