Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alberto de Oliveira

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Vaso Grego - Alberto de Oliveira :

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Esta de áureos relevos, trabalhada
De divas mãos, brilhante copa, um dia,
Já de aos deuses servir como cansada
Vinda do Olimpo, a um novo deus servia.

 


Era o poeta de Teos que a suspendia
Então, e, ora repleta ora esvasada,
A taça amiga aos dedos seus tinia,
Toda de roxas pétalas colmada.



Depois... Mas o lavor da taça admira,
Toca-a, e do ouvido aproximando-a, às bordas
Finas hás-de lhe ouvir, canora e doce,

Ignota voz, qual se da antiga lira
Fosse a encantada música das cordas,
Qual se essa voz de Anacreonte fosse.

publicado por picareta escribante às 07:28
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Domingo, 29 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Wordsworth

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She was a Phantom of delight - William Wordsworth :

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Ela era um Espírito da alegria
Quando a vi no primeiro dia;
Bela Aparição brilhante
Enviada ao encanto do instante;
Seus olhos, como o Crepúsculo sereno;
Como o Crepúsculo, seu cabelo moreno;
E tudo mais que a envolvia
À Aurora e à Primavera pertencia;
Forma dançante, imagem a alegrar?
A surpreender, assolar e assombrar.

 

Olhei-a de perto, lá estava ela,
Um Espírito, mas também uma Donzela!
Seu movimento leve, solto e frugal,
E passos da liberdade virginal;
No semblante se encontraram as nuanças
Das doces promessas e doces lembranças;
Criatura nem brilhante ou boa demais
Para os afazeres cotidianos e normais,
Ou a sofrer passageiro e simples desejos,
Louvor, culpa, amor, lágrimas, sorrisos e beijos.

 

Com os olhos tranquilos posso contemplar
Desta máquina o verdadeiro pulsar;
Um ser que, pensativo, respira forte;
Um Viajante, em meio à vida e à morte;
A razão firme, a vontade temperada,
Uma perfeita Mulher soberbamente forjada;
Paciência, visão, habilidade e poder,
Para alertar, confortar e reger;
E ainda um Espírito com fulgor magistral,
Com algo da luz angelical.

 

Tradução de Alberto Marsicano e John Milton

publicado por picareta escribante às 07:29
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Sábado, 28 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mário de Sá-Carneiro

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Estatua falsa ( Garra dos Sentidos ) - Mário de Sá-Carneiro :

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Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem misterio no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.
Na minha dôr quebram-se espadas de ansia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distancia.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os ceus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

publicado por picareta escribante às 07:29
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Sexta-feira, 27 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Torquato Tasso

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Madrigal - Torquato Tasso :

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Qual orvalho, ou qual pranto,
que lágrimas aquelas
que correrem do noturno manto
e do luzente rosto das estrelas?
E por que semeou a branca lua
nuvens negras de gotas cristalinas
à relva das colinas?
Por que na noite escura
se ouviram, como gritos, mundo afora
caçar o vento a aurora?
Foram sinais, talvez, de que partiste
e eu, mudo, fiquei triste?

publicado por picareta escribante às 07:31
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Quinta-feira, 26 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Henry Vaughan

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The World - Henry Vaughan :

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O Mundo

Eu vi a eternidade na outra noite
Como um anel grande da luz pura e infinita,
Toda calma porque era brilhante,
E redondo abaixo dele tempo nas horas, dias, anos,
Dirigido pelas esferas,
Como uma sombra vasta moveu-se em qual o mundo
E todo seu trem arremessado.
publicado por picareta escribante às 07:30
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Quarta-feira, 25 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Hilda Hilst

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ODE DESCONTÍNUA E REMOTA PARA FLAUTA E OBOÉ. DE ARIANA PARA DIONÍSIO - Hilda Hilst :

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I

 

É bom que seja assim, Dionisio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

 

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

 

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

 

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá.
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

 


II

 

Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

 

Ainda que tu me vejas extrema e suplicante
Quando amanhece e me dizes adeus.

 


III

 

A minha Casa é gurdiã do meu corpo
E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência

 

E minha boca se faz fonte de prata
Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.

 

A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
À uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta

 

Por que recusas amor e permanência?

 

VI

 

Três luas, Dionísio, não te vejo.
Três luas percorro a Casa, a minha,
E entre o pátio e a figueira
Converso e passeio com meus cães

 

E fingindo altivez digo à minha estrela
Essa que é inteira prata, dez mil sóis
Sirius pressaga

 

Que Ariana pode estar sozinha
Sem Dionísio, sem riqueza ou fama
Porque há dentro dela um sol maior:

 

Amor que se alimenta de uma chama
Movediça e lunada, mais luzente e alta

 

Quando tu, Dionísio, não estás.

 

VIII

 

Se Clódia desprezou Catulo
E teve Rufus, Quintius, Gelius
Inacius e Ravidus

 

Tu podes muito bem, Dionísio,
Ter mais cinco mulheres
E desprezar Ariana
Que é centelha e âncora

 

E refrescar tuas noites
Com teus amores breves.
Ariana e Catulo, luxuriantes

 

Pretendem eternidade, e a coisa breve
A alma dos poetas não inflama.
Nem é justo, Dionísio, pedires ao poeta

 

Que seja sempre terra o que é celeste
E que terrestre não seja o que é só terra.

 


IX

 

“Conta-se que havia na China uma mulher
belíssima que enlouquecia de amor todos
os homens. Mas certa vez caiu nas
profundezas de um lago e assustou os peixes.”

 

 

 Tenho meditado e sofrido
Irmanada com esse corpo
E seu aquático jazigo

 

Pensando

 

Que se a mim não deram
Esplêndida beleza
Deram-me a garganta
Esplandecida: a palavra de ouro
A canção imantada
O sumarento gozo de cantar
Iluminada, ungida.

 

E te assustas do meu canto.
Tendo-me a mim
Preexistida e exata

 

Apenas tu, Dionísio, é que recusas
Ariana suspensa nas tuas águas.

 


X

 

Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, Dionísio, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa

 

E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.

 

Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, Dionísio, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.

publicado por picareta escribante às 07:27
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Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel Bandeira

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DESENCANTO - MANUEL BANDEIRA :

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Eu faço versos como quem chora
De desalento , de desencanto
Fecha meu livro se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue , volúpia ardente
Tristeza esparsa , remorso vão
Dói-me nas veias amargo e quente
Cai gota à gota do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

Eu faço versos como quem morre.
Qualquer forma de amor vale a pena!!
Qualquer forma de amor vale amar!

publicado por picareta escribante às 07:32
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Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Augusto Frederico Schmidt

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                                                                           Augusto Frederico Schmidt

publicado por picareta escribante às 07:29
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Domingo, 22 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Augusto dos Anjos

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Versos íntimos - Augusto dos Anjos :

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Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

publicado por picareta escribante às 07:33
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Sábado, 21 de Abril de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Rosa Lobato Faria

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Quem Me Quiser - Rosa Lobato Faria :

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Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantigas dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

 

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

 

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

 

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

 

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

publicado por picareta escribante às 07:33
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