Sábado, 31 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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ESTATUTOS DO HOMEM - THIAGO DE MELLO :

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Artigo I

Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.


Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.


Artigo IV

Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.


Parágrafo único:

O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.


Artigo V

Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.


Artigo VI

Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.


Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.


Artigo IX

Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.


Artigo X

Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.


Artigo XI

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Artigo XII

Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.


Parágrafo único:

Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.


Artigo XIII

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.


Artigo Final.

Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

 

publicado por picareta escribante às 07:20
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Sexta-feira, 30 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Canción del pirata - José de Espronceda :

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A CANÇÃO DO PIRATA

Com doze canhões por banda,

Vento em popa, a todo pano

Voa, não corre, no oceano

Um veleiro bergantim;

Baixel pirata, que chamam

Por seus feitos "O Temido",

Em todo o mar conhecido

De Marselha a Bombaim.

 

Treme a lua sobre as águas;

Nos rinzes suspira o vento,

E ergue em brado movimento

Orlas de prata e de azul.

Ei-lo, o capitão pirata,

Que vai cantando na popa,

Ásia a um bordo, a outro a Europa,

E pela proa Estambul.

 

"Voga, meu barco, navega

"Sem temor;

"Nem forte nau na refrega,

"Nem procela, ou calmaria "

Do teu rumo te desvia,

Ou sujeita o teu valor.

"Vinte presas

"Tenho feito

"Em despeito

"Té do inglês:

"E abateram

"Pendões vários

"Cem contrários

"A meus pés.

 

"O meu barco é meu tesouro,

"A liberdade o meu Deus,

"É-me o pego única pátria,

"Lei a força, o vento, e os céus!

 

"Além movam feroz guerra

"Cegos reis

"Por mais um palmo de terra;

"Que eu aqui tenho por meu

"Quanto avisto em mar e céu,

"A quem nada vem dar leis.

"Nem bandeiras

"Sobranceira

"Nem bandeira

"De esplendor,

"Que não ceda

"De repente,

Ë me alente

"Meu valor.

 

"O meu barco é meu tesouro

"A liberdade o meu Deus,

"É-me o pego única pátria,

"Lei a força, vento, e os céus!

"A voz: - "D'avante uma vela!

"É de ver

"Como tudo se acautela

"Panos cheios a escapar;

"Que eu sou déspota do mar,

"Minha fúria é de temer,

"Nós despojos

"O colhido

"Eu divido

"Por igual,

"E só guardo

"Dessa presa

"A beleza

"Sem rival.

 

"O meu barco é meu tesouro,

"A liberdade o meu Deus,

"É-me o pego única pátria,

"Lei a força, o vento e os céus.

 

 

"Condenado estou à morte!

"Disso rio.

"Se não me abandona a sorte

"O mesmo que me condena

"Penderá de alguma antena

"Talvez no próprio navio.

"sucumbindo

"Que é a vida?

"Já perdida

"Não a vi,

"Quando o jugo

"Vil de escravo

"Como um bravo

"Sacudi?

 

"O meu barco é meu tesouro,

"A liberdade meu Deus

"É-me o pego única pátria,

"Lei a força, o vento e os céus.

 

"São minha orquestra melhor

"Aguilhões Mas o horríssono tremor

"Desses cabos sacudidos;

"E das vagas os bramidos,

"E o rugir dos meus canhões.

"Quando o raio

"Cruza aos centos

"Eu, dos ventos

"Ao troar,

"Adormeço

"Sossegado,

"Embalado,

"Pelo mar!

 

"O meu barco é meu tesouro,

"A liberdade meu Deus

"É-me o pego única pátria,

"Lei a força, o vento e os céus."

 

(Trad. de José da Silva Mendes Leal)

publicado por picareta escribante às 07:32
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Quinta-feira, 29 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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SÓLO QUIEN AMA VUELA - Miguel Hernández

.

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Só quem ama voa


Sobrevivem, Miguel, seus versos refugiados
Entre livros de viagens e novelas
Em português neste lado do mundo.
A voz do poeta
Que se impõe sobre a terra,
Voando já sobre este mar poderoso
E tristes praias vazias.
Eu também sou barro ainda que Javier
Me chame.

O vento move os braços
das palmeiras que te buscam.
As palmeiras que levantam
Seus olhos te buscando,
Claros de desejos,
Ardente de asas e penas.

Volto seus versos
Junto aos outros livros
Tão distantes da sua pátria...
Para que todos os olhos te leiam.
Onde faltaram plumas
Pôs valor e esqueço.

publicado por picareta escribante às 07:35
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Quarta-feira, 28 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Besos - Gabriela Mistral :

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Há beijos que pronunciam por si mesmos
do amor a sentença peremptória,

há beijos que se dão com um olhar,
há beijos que se dão com a memória.

Há beijos silenciosos, beijos nobres,
Há beijos enigmáticos, sinceros,
Há beijos que se dão só com a alma,
Há beijos proibidos, mas verdadeiros.

Há beijos que queimam e que ferem,
Há beijos que arrebatam os sentidos,
Há beijos misteriosos que deixaram
milhares de sonhos errantes e perdidos.

Há beijos problemáticos que contém
um código que ninguém tem decifrado,
Há beijos que provocam a tragédia
que tantas rosas em botão tem arrasado.

Há beijos perfumados, beijos quentes
que palpitam em íntimos desejos
Há beijos que nos lábios deixam rastros
como um campo de sol entre dois gelos.

Há beijos que parecem açucenas
por serem sublimes, ingênuos e puros,
Há beijos traiçoeiros e covardes,
Há beijos malditos e perjuros.

Judas a Jesus beija e deixa impressa
em seu rosto de Deus a aleivosia,
enquanto Madalena com seus beijos
fortifica piedosa de Jesus a agonia.

Desde então nos beijos pulsa
o amor, a traição e as dores;
nas bocas humanas se parecem
à brisa que brinca com as flores.

Há beijos que produzem desvarios
de amorosa paixão ardente e louca,
você bem os conhece pois são meus
criados por mim para sua boca.

Beijos de fogo que no seu rastro impresso
levam sulcos de um amor vetado,
beijos de tempestade, selvagens beijos
que só nossos lábios tem provado.

Lembra-se do primeiro? Indescritível!
Cobriu sua face de tons vermelhos
e no impulso de uma emoção tão estranha
encheram-se de lágrimas seus olhos.

Lembra-se de que numa tarde de loucura
eu o vi ciumento imaginando ofensas;
segurei-o com meus braços, vibrou um beijo
e viu brotar sangue em meus lábios .

Eu o ensinei a beijar: os beijos frios
são de impassível coração de rocha,
Eu o ensinei a beijar com meus beijos
inventados por mim para a sua boca.

.

Hay besos que pronuncian por sí solos
la sentencia de amor condenatoria,
hay besos que se dan con la mirada
hay besos que se dan con la memoria.

Hay besos silenciosos, besos nobles
hay besos enigmáticos, sinceros
hay besos que se dan sólo las almas
hay besos por prohibidos, verdaderos.

Hay besos que calcinan y que hieren,
hay besos que arrebatan los sentidos,
hay besos misteriosos que han dejado
mil sueños errantes y perdidos.

Hay besos problemáticos que encierran
una clave que nadie ha descifrado,
hay besos que engendran la tragedia
cuantas rosas en broche han deshojado.

Hay besos perfumados, besos tibios
que palpitan en íntimos anhelos,
hay besos que en los labios dejan huellas
como un campo de sol entre dos hielos.

Hay besos que parecen azucenas
por sublimes, ingenuos y por puros,
hay besos traicioneros y cobardes,
hay besos maldecidos y perjuros.

Judas besa a Jesús y deja impresa
en su rostro de Dios, la felonía,
mientras la Magdalena con sus besos
fortifica piadosa su agonía.

Desde entonces en los besos palpita
el amor, la traición y los dolores,
en las bodas humanas se parecen
a la brisa que juega con las flores.

Hay besos que producen desvaríos
de amorosa pasión ardiente y loca,
tú los conoces bien son besos míos
inventados por mí, para tu boca.

Besos de llama que en rastro impreso
llevan los surcos de un amor vedado,
besos de tempestad, salvajes besos
que solo nuestros labios han probado.

¿Te acuerdas del primero...? Indefinible;
cubrió tu faz de cárdenos sonrojos
y en los espasmos de emoción terrible,
llenaron sé de lágrimas tus ojos.

¿Te acuerdas que una tarde en loco exceso
te vi celoso imaginando agravios,
te suspendí en mis brazos... vibró un beso,
y qué viste después...? Sangre en mis labios.

Yo te enseñe a besar: los besos fríos
son de impasible corazón de roca,
yo te enseñé a besar con besos míos
inventados por mí, para tu boca.

publicado por picareta escribante às 07:33
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Terça-feira, 27 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.

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Volverán las oscuras golondrinas - Gustavo Adolfo Becquer :

.

.

Voltarão as escuras andorinhas
em teu balcão seus ninhos a pendurar,
e outra vez com a asa em seus cristais
brincando chamarão;


Mas aquelas que o vôo refreavam
tua formosura e minha felicidade ao contemplar,
aquelas que aprenderam nossos nomes...
Essas... não voltarão!

 

Voltarão as densas madressilvas
de teu jardim os muros a escalar,
e outra vez na tarde, ainda mais formosas,
suas flores se abrirão;

 

porém aquelas, coalhadas de orvalho
cujas gotas olhávamos tremer
e cair, como lágrimas do dia...
Essas... não voltarão!

 

Voltarão do amor em teus ouvidos
as palavras ardentes a soar;
teu coração de seu profundo sono
talvez despertará;

 

porém mudo e absorto e de joelhos,
como se adora a Deus ante seu altar,
como eu te quis... desengana-te.
Assim não te quererão!

Tradução: Zélia Tellaroli N. Zamora

publicado por picareta escribante às 07:30
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Segunda-feira, 26 de Março de 2012

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Antonio Tabucchi - Citações :

.

.

"Os artistas são os bombeiros dos incêndios da democracia"

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"A literatura é uma forma de conhecimento. O que saberíamos do amor se não tivéssemos lido o Otelo, de Shakespeare, Ana Karenina, Madame Bovary?
.
"O livro é uma memória mais longa - tem vantagem sobre um jornal diário porque, no dia seguinte, este serve para embrulhar a salada na mercearia"
publicado por picareta escribante às 07:31
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Domingo, 25 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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MEDITAÇÃO - Ruy Cinatti :

.

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Tudo imaterial na praia rasa
Cheia de sol, ao fim da tarde.
Proa ao vento quebrada,
A vaga, entre rochedos, se ilumina.
É tudo imaterial, tudo neblina
Ténue que aos poucos arde,
Ao fim da tarde se desfaz, flutua;
Nave de outros tempos se insinua
E voo de ave desliza
Ao longe linha pura.
Tudo imaterial na praia rasa

publicado por picareta escribante às 07:26
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Sábado, 24 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.

Oriental - José Zorrilla :

.

.

Corriendo van por la vega
a las puertas de Granada
hasta cuarenta gomeles
y el capitán que los manda.
Al entrar en la ciudad,
parando su yegua blanca,
le dijo éste a una mujer
que entre sus brazos lloraba:
«Enjuga el llanto, cristiana
no me atormentes así,
que tengo yo, mi sultana,
un nuevo Edén para ti.
Tengo un palacio en Granada,
tengo jardines y flores,
tengo una fuente dorada
con más de cien surtidores,
y en la vega del Genil
tengo parda fortaleza,
que será reina entre mil
cuando encierre tu belleza.
Y sobre toda una orilla
extiendo mi señorío;
ni en Córdoba ni en Sevilla
hay un parque como el mio.
Allí la altiva palmera
y el encendido granado,
junto a la frondosa higuera,
cubren el valle y collado.
Allí el robusto nogal,
allí el nópalo amarillo,
allí el sombrío moral
crecen al pie del castillo.
Y olmos tengo en mi alameda
que hasta el cielo se levantan
y en redes de plata y seda
tengo pájaros que cantan.
Y tú mi sultana eres,
que desiertos mis salones
están, mi harén sin mujeres,
mis oídos sin canciones.
Yo te daré terciopelos
y perfumes orientales;
de Grecia te traeré velos
y de Cachemira chales.
Y te dará blancas plumas
para que adornes tu frente,
más blanca que las espumas
de nuestros mares de Oriente.
Y perlas para el cabello,
y baños para el calor,
y collares para el cuello;
para los labios... ¡amor!»
«¿Qué me valen tus riquezas
-respondióle la cristiana-,
si me quitas a mi padre,
mis amigos y mis damas?
Vuélveme, vuélveme, moro
a mi padre y a mi patria,
que mis torres de León
valen más que tu Granada.»
Escuchóla en paz el moro,
y manoseando su barba,
dijo como quien medita,
en la mejilla una lágrima:
«Si tus castillos mejores
que nuestros jardines son,
y son más bellas tus flores,
por ser tuyas, en León,
y tú diste tus amores
a alguno de tus guerreros,
hurí del Edén, no llores;
vete con tus caballeros.»
Y dándole su caballo
y la mitad de su guardia,
el capitán de los moros
volvió en silencio la espalda.

publicado por picareta escribante às 07:27
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Sexta-feira, 23 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.

The Cataract Of Lodore - Robert Southey :

.

.

1.. - De que modo desce
A água de Lodore?
Perguntou-me, certa vez, meu filhinho
Querendo que lhe mostrasse tudo
E o fizesse em forma de versos rimados
Logo logo, ouvindo isso
Primeiro surgiu a irmã
Depois, outra, para repetir e reforçar
O pedido do irmãozinho:
Saber de que modo a água
De Lodore despencava
Com seu ímpeto e seu rugido,
Tal como tantas vezes a viram antes.
Dessa maneira, lhes narrei em rimas
Pois de rimas entendo do riscado.

Isso com talento dominava

Para seu regozijo a mim
Cabia cantar-lhes
Já que para elas Laureado era
Tanto quanto era rei.

 

2. Desde suas origens
Que bem vinham dar no lagozinho montanhoso;
De suas nascentes
Nas montanhas,
De seus canais e córregos,
Através de musgos e matagais
Correm suas águas , que se arrastam
Por um momento até adormecerem
No próprio lagozinho.
Daí pra frente, dando partida
Passam elas pelos juncos
E, na distância, se perdem
Pelos prados e clareiras
Sob sol, sob sombras,
Sob o abrigo das florestas,
No meio dos despenhadeiros em sua agitação,
Confusamente,
Precipitadamente.
Neste ponto vêm cintilando,
Mais adiante, jazem se escondendo;
Agora esfumaçando, espumando
Tumultudas, raivosas
Até que, nesta célere corrida,
Formando uma curva,
Alcançam o lugar
Na sua íngreme queda.

 

3. A portentosa queda’água
Lança-se das alturas,
Batendo, se enfurecendo,
Como se combatendo em guerra estivesse
Entre cavernas e rochas,
Erguendo-se, saltando,
Afundando-se, se arrastando,
Inchando, varrendo,
Inundando, pulando,
Voando, se arremetendo,
Contorcendo-se, retinindo,
Redemoinhando, espanando,
Esguichando, cabriolando,
Volteando, torcendo
Incessantemente,
Com um reboar sem fim;
Golpeando, lutando,
Numa visão bela nunca antes vista;
Desconcertante, ensurdecedora.

 

4.. Reunindo, projetando,
Retardando, se apressando,
Chocando-se, sacudindo,
Dardejando, dividin do,
Enfileirando, espalhando,
Zunindo, sibilando,
Gotejando, saltando,
Batendo, rachando,
Brilhando, juntando,
Ribombando, pelejando,
Sacudindo, estremecendo,
Ondulando, enfurecendo,
Agitando-se, cruzando,
Fluindo, se removendo,
Correndo, assustando,
Espumando, vagando,
Atroando, enovelando,
Caindo, saltando,
Esforçando-se, arrancando,
Borbulhando, grunhindo.

 

5,. Reluzindo, se fragmentando,
Reunindo, flutuando,
Alvejando, brilhando,
Agitando-se, se despedaçando,
Apressando-se, levemente correndo
Trovejando, se esponjando,

 

 

6. Reluzindo, se fragmentando, flutuando,
Caindo, brigando, se expandindo,
Empuxando, rasgando, se esforçando,
Salpicando, cintilando, se encrespando,
Reboando, ricocheteando, se multiplicando,
Trovejando, troando, desabando,
Estalejando, bombardeando, se esfacelando.

 

7. Retorcendo, batendo, encontrando-se, se cobrindo,
Retardando, se perdendo, brincando,
Avançando, empinando, reluzindo, dançando,
Rechaçando, tumultuando, mourejando, fervendo
Vislumbrando, fluindo, evaporando, irradiando,
Precipitando-se, borbotando, esbarrando, esguichando,
Agitando, golpeando, estrondando, esbofeteando,
Espiralando, rodopiando, remoinhando, girando,
Golpeando surdamente, baqueando, colidindo,pulando,
Salpicando, flamejando, esparramando, estrepitando,
Incessantemente, sempre, porém, em queda,
Para todo sempre misturando-se sons e movimentos,
Num só jato, num todo indiviso,
Assim saltam as águas de Ladore.

publicado por picareta escribante às 07:31
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Quinta-feira, 22 de Março de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

.

"Teia" - Lau Siqueira :

.

.

teia

então fui diluindo a loucura
ao compreender que a nascente
de tudo era um caos

urbano e diurno

aprendi a velejar pelas calçadas

 

como uma sombra entre sombras


sem inventar rastros
ousei vestir os sapatos da morte
e revelar-me ao círculo visceral
da existência

nem fui o
insano ou o decrépito humano
apenas despi a coragem e vivi
sem pele a lapidação da alma



perdi o que
não era essência



e agora
pleno de mim
não sei nem sou

publicado por picareta escribante às 07:30
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