Quarta-feira, 29 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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VIOLA QUEBRADA - Camillo de Jesus Lima :

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Da viola pra muié

É pequena a deferença.

Ancê óia, escuta e pensa.

Eu juro, esta fala é franca:

A viola tem cabelo

Nas dez corda qui ela tem.

Tale quale uma muié,

Ela tem braço também

E tem cintura e tem anca.

A viola faz chorá

E chora a hora qui qué.

Tale quale uma muié,

Derrete toda na mão

Da pessôa qui qué bem.

Só inziste duas cousa

Qui ela tem e muié não:

É qui a viola de pinho

Tem alma e tem coração…

publicado por picareta escribante às 07:35
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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Psalm of Life - Henry Longfellow :

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Um Salmo à Vida

Não me faleis, em enlutados versos,
Que um sonho vazio seja a vida!
Pois morta é a alma que adormece
E as aparências enganosas são.

 

Genuína, a vida! Vida, coisa séria!
O fim último o túmulo não é;
“Sois pó e ao pó retornais”,
Assertiva não condizente à alma.

 

Nem só de alegrias ou de tristezas
Se traçam nossos destinos
Mas de atos cumpridos a fim de que cada amanhã
Um passo melhor do que hoje seja.

 

Longa é a tarefa e fugaz é o Tempo,
Nosso corações, posto fortes e valentes,
Como tambores surdos ainda tocam
Marchas fúnebres a caminho do túmulo.

 

Que no amplo campo de batalhas do mundo
No bivaque da vida,
Não sejais gado inerte e submisso!
Um herói sede na luta!

 

Ainda que promissor, no Futuro não confieis!
Deixai que o Passado morto os que se foram sepulte!
Agi – no Presente em vida, agi!
Com o coração aberto e com Deus no Alto!

 

Recordar nos fazem todos os grandes homens
Que podemos tornar sublimes nossas vidas;
E, na despedida, deixar devemos
Nas areias do tempo nossas marcas –

 

Marcas que, quiçá, um outro ser,
Da vida velejando sobre o mar solene,
Um irmão, náufrago à deriva,
Avistando-as, a esperança há de reaver.

 

Em alerta e em ação permaneçamos sempre.
Com o coração a qualquer situação pronto
Alcançar procurando, perseguindo sempre,
A lutar e a esperar aprendei.

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(Tradução de Cunha e Silva Filho)

publicado por picareta escribante às 07:31
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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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O Homem e a Mulher - Victor Hugo :

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O homem é a mais elevada das criaturas.

 

A mulher é o mais sublime dos ideais.

 

 

Deus fez para o homem um trono.

 

Para a mulher, um altar.

 

O trono exalta.

 

O altar santifica.

 

 

O homem é o cérebro; a mulher é o coração.

 

O cérebro fabrica a luz; o coração produz Amor.

 

A luz fecunda.

 

O Amor ressuscita.

 

 

O homem é forte pela razão.

 

A mulher é invencível pelas lágrimas.

 

A razão convence.

 

As lágrimas comovem.

 

 

O homem é capaz de todos os heroísmos.

 

A mulher, de todos os martírios.

 

O heroísmo enobrece.

 

O martírio sublima.

 

 

O homem tem a supremacia.

 

A mulher, a preferência.

 

A supremacia significa a força.

 

A preferência representa o direito.

 

 

O homem é um gênio; a mulher, um anjo.

 

O gênio é imensurável; o anjo, indefinível.

 

Contempla-se o infinito.

 

Admira-se o inefável.

 

 

A aspiração do homem é a suprema glória.

 

A aspiração da mulher é a virtude extrema.

 

A glória faz tudo grande.

 

A virtude faz tudo divino.

 

 

O homem é um código.

 

A mulher, um evangelho.

 

O código corrige.

 

O evangelho aperfeiçoa.

 

 

O homem pensa.

 

A mulher sonha.

 

Pensar é ter no crânio uma larva.

 

Sonhar é ter na fronte uma auréola.

 

 

O homem é um oceano.

 

A mulher um lago.

 

O oceano tem a pérola que adorna.

 

O lago, a poesia que deslumbra.

 

 

O homem é a águia que voa.

 

A mulher é o rouxinol que canta.

 

Voar é dominar o espaço.

 

Cantar é conquistar a alma.

 

 

O homem é um templo.

 

A mulher é o sacrário.

 

Ante o templo nos descobrimos.

 

Ante o sacrário nos ajoelhamos.

 

 

Enfim, o homem está colocado onde termina a terra.

 

E a mulher onde começa o céu.
publicado por picareta escribante às 07:29
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Domingo, 26 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Manias - Cesario Verde :

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O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -hoje uma ossada-,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

publicado por picareta escribante às 07:31
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Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Ode a um rouxinol - John Keats :

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Meu peito dói; um sono insano sobre mim

 

 

 

Pesa, como se eu me tivesse intoxicado

 

 

 

De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,

 

 

 

Há um só minuto, e após no Letes me abismado:

 

 

 

Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,

 

 

 

É do excesso de ser que aspiro em tua paz –

 

 

 

Quando, Dríade leve-alada em meio à flora,

 

 

 

Do harmonioso recorte

 

 

 

Das verdes árvores e sombras estivais,

 

 

 

Lanças ao ar a tua dádiva sonora.

 

 

 

 

Ah! um gole de vinho refrescado longamente

 

 

 

Na solidão do solo muito além do chão,

 

 

 

Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente,

 

 

 

Dança e Provença e sol queimando na canção!

 

 

 

Ah! uma taça de luz do Sul, plena e solar,

 

 

 

Da fonte de Hipocrene enrubescida e pura,

 

 

 

Com bolhas de rubis à beira rebordada

publicado por picareta escribante às 07:30
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Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Digo que a lua é mulher - José Afonso :

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Digo que a lua é mulher,
porque muda quando quer,
muda de forma e de cor...
Do que digo, pois faz prova,
essa lua, a «lua nova»,
«lua das noites de amor»!...

Digo que a lua é mulher,
faça ela o que fizer,
já não muda a minha ideia!...
- Viro a esquina, sigo em frente,
mas ela em «quarto crescente»,
se insinua e "pavoneia"...

Digo que a lua é mulher,
pois nada muda sequer,
nesse seu «quarto minguante»!...
Porque enfim, haja o que houver,
sobre uma rua qualquer,
está sempre a lua brilhante!

Digo que a lua é mulher,
porque muda quando quer,
muda de forma e de cor...
Porque ela à noite, ao serão,
penetra em meu coração,
faz de mim um sonhador!...

Digo que a lua é mulher,
faça ela o que fizer,
já não muda a minha ideia...
- Sendo assim não é errado,
que me sinta deslumbrado,
ao olhar a «lua cheia»!

- Mais logo, por sorte a minha,
sei que a lua está sozinha,
vou tentar falar com ela...
Que a lua sai à noitinha,
com uma «saia curtinha»,
com uma «saia amarela»!...

publicado por picareta escribante às 07:26
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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Paisagem - David Mourão-Ferreira :

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Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)

publicado por picareta escribante às 07:30
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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Massemba - José Carlos Capinan :

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Que noite mais funda calunga
No porão de um navio negreiro
Que viagem mais longa candonga
Ouvindo o batuque das ondas
Compasso de um coração de pássaro
No fundo do cativeiro
É o semba do mundo calunga
Batendo samba em meu peito
Káwo-kabiesile-káwo
Okê-arô-okê

Quem me pariu foi o ventre de um navio
Quem me ouviu foi o vento no vazio
Do ventre escuro de um porão
Vou baixar no seu terreiro
Êpa raio, machado e trovão
Êpa justiça de guerreiro

Ê semba ê ê samba ah
O batuque das ondas
Nas noites mais longas
Me ensinou a cantar

Ê semba ê ê samba ah
Dor é o lugar mais fundo
É o umbigo do mundo
É o fundo do mar
Ê semba ê ê samba ah
No balanço das ondas okê arô
Me ensinou a bater seu tambor
Ê semba ê ê samba ah
No escuro porão eu vi o clarão
Do giro do mundo

Que noite mais funda calunga
No porão de um navio negreiro
Que viagem mais longa candonga
Ouvindo o batuque das ondas
Compasso de um coração de pássaro
No fundo do cativeiro
É o semba do mundo calunga
Batendo samba em meu peito
Káwo-kabiesile-káwo
Okê-arô-okê

Quem me pariu foi o ventre de um navio
Quem me ouviu foi o vento no vazio
Do ventre escuro de um porão
Vou baixar no seu terreiro
Êpa raio, machado e trovão
Êpa justiça de guerreiro

Ê semba ê ê samba ah
Ê céu que cobriu nas noites de frio
Minha solidão

Ê semba ê ê samba ah
É oceano sem fim, sem amor, sem irmão
Ê káwo quero ser seu tambor

Ê semba ê ê samba ah
Eu faço a lua brilhar o esplendor e clarão
Luar de Luanda em meu coração

Umbigo da cor, abrigo da dor,
A primeira umbigada é massemba yayá
Yayá massemba é o samba que dá

Ô aprender a ler
Pra ensinar meus camaradas
Vou aprender a ler
Pra ensinar meus camaradas
... "Prender a ler
Pra ensinar meus camaradas
Vou aprender a ler
Pra ensinar meus camaradas
Que noite mais funda calunga...

publicado por picareta escribante às 07:26
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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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A Concha -Vitorino Nemésio :

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A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.


A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

publicado por picareta escribante às 07:27
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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Poema sobre a recusa - Maria Teresa Horta :

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Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.

publicado por picareta escribante às 07:32
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