Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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O Navio de Espelhos - Mário Cesariny :

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O navio de espelhos

não navega, cavalga

 

Seu mar é a floresta

que lhe serve de nível

 

Ao crepúsculo espelha

sol e lua nos flancos

 

Por isso o tempo gosta

de deitar-se com ele

 

Os armadores não amam

a sua rota clara

 

(Vista do movimento

dir-se-ia que pára)

 

Quando chega à cidade

nenhum cais o abriga

 

O seu porão traz nada

nada leva à partida

 

Vozes e ar pesado

é tudo o que transporta

 

E no mastro espelhado

uma espécie de porta

 

Seus dez mil capitães

têm o mesmo rosto

 

A mesma cinta escura

o mesmo grau e posto

 

Quando um se revolta

há dez mil insurrectos

 

(Como os olhos da mosca

reflectem os objectos)

 

E quando um deles ala

o corpo sobre os mastros

e escruta o mar do fundo

 

Toda a nave cavalga

(como no espaço os astros)

 

Do princípio do mundo

até ao fim do mundo

publicado por picareta escribante às 07:28
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Terça-feira, 29 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Camilo Pessanha - Quando voltei encontrei os meus passos  :

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Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a úmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
_ Tão rediviva! nos meus olhos baços...
Olhos turvos de lágrimas contidas.
_ Mesquinhos passos, porque doidejastes
Assim transviados, e depois tornastes

Ao ponto das primeiras despedidas?
Onde fostes sem tino, ao vento vário,
Em redor, como as aves num aviário,
Até que a asita fofa lhes faleça...
Toda essa extensa pista _ para quê?
Se há de vir apagar-vos a maré,
Com as do novo rasto que começa...

publicado por picareta escribante às 07:27
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Soneto II - Gregório de Matos :

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Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais, que só, sisudo.

publicado por picareta escribante às 07:30
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Domingo, 27 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Devolve - Mário Lago :

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Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que  perdi
Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te  ofereci
Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci
Devolve, que eu te devolvo ainda
Esta saudade  infinda
Que eu tenho de ti

publicado por picareta escribante às 07:35
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Sábado, 26 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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El Amor - Felix Lope Vega :

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Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, moral, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde, animoso,

No hallar, fuera del bien, centro y reposo;
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satesfecho, ofendido, receloso,

Huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor suave,
olvidar el provecho, amar el daño;

Creer que un cielo en un infierno cabe,
dar a la vida y el alma un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

publicado por picareta escribante às 07:31
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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Antífona - Cruz e Souza  :

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Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares,  de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos  dos turíbulos das aras
Formas do Amor, constelarmante puras,
De Virgens  e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências  de lírios e de rosas ...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da  Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol  que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos  venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ...

Infinitos espíritos  dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes  versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais  azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções,  todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o  pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e  ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente,  luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de  mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas  róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos  acres,
Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e  flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões  de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo!  vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da  Morte...

publicado por picareta escribante às 07:31
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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Nasci para ser ignorante - Sebastião da Gama :

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Nasci para ser ignorante
mas os parentes teimaram
(e dali não  arrancaram)
em fazer de mim estudante.

Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender,  aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.

 

Perdi o nome às Estrelas,
aos nossos rios e aos de fora.
Confundo  fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.

 

Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.

 

Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou  eu que me deito
sem ter falado com ela.

 

Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como  em latim
as crismaram os doutores.

 

No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me  esperto,
inteligente e sabido.

 

O pior é se um director
espreita p'la fechadura:
lá se vai  licenciatura
se ouve as lições do doutor.

 

Lá se vai o ordenado
de tuta-e-meia por mês.
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.

 

Se me não lograr o fado
porém, com tais directores,
e de rios, aves e  flores
somente for vigiado,

 

enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e  rios
ignorante é que me querem.

publicado por picareta escribante às 07:34
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Quarta-feira, 23 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Saudade - Pablo Neruda :

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Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

 

Pablo Neruda

publicado por picareta escribante às 07:32
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Terça-feira, 22 de Novembro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria

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Soneto do Amor Demais  - Vinicius de Moraes  :

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Soneto do Amor Demais

 

Não, já não amo mais os passarinhos
A quem, triste, contei tanto  segredo
Nem amo as flores despertadas cedo
Pelo vento orvalhado dos  caminhos.

Não amo mais as sombras do arvoredo
Em seu suave entardecer  de ninhos
Nem amo receber outros carinhos
E até de amar a vida tenho  medo.

Tenho medo de amar o que de cada
Coisa que der resulte  empobrecida
A paixão do que se der à coisa amada

E que não sofra por  desmerecida
Aquela que me deu tudo na vida
E que de mim só quer amor - mais nada.

publicado por picareta escribante às 07:34
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Segunda-feira, 21 de Novembro de 2011

Uns Pensamentos por dia, nem sabe o bem que lhe faria(m)

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Frases, de Jão Guimaraes Rosa :

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Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.

(Guimarães Rosa)


 

Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando.

(Guimarães Rosa)

 

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

(Guimarães Rosa)

 

Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?

(Guimarães Rosa)

 

Quem muito se evita, se convive!

(Guimarães Rosa)

 

Ah, mas a fé nem vê a desordem ao redor...

(Guimarães Rosa)

 

A vida é um campo de urtigas onde a única rosa é o amor.

(Guimarães Rosa)

 

Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia

(Guimarães Rosa)

 

Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende.

(Guimarães Rosa)

 

Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.

(Guimarães Rosa)

 

Foi o tempo que investiste em tua rosa que fez tua rosa tão importante

(Guimarães Rosa)

 

É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.

(Guimarães Rosa)

 

Infelicidade é uma questão de prefixo.

(Guimarães Rosa)

 

Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.

(Guimarães Rosa)

 

Sorte é isto. Merecer e ter.

(Guimarães Rosa)

 

O que não é Deus, é estado do demônio. Deus existe mesmo quando não há.Mas o demônio não precisa de existir para haver.

(Guimarães Rosa)

 

Felicidade se acha é em horinhas de descuido

(Guimarães Rosa)

 

Deus come escondido, e o Diabo sai por toda a parte lambendo o prato.

(Guimarães Rosa)

 

Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante

(Guimarães Rosa)

 

Viver para odiar uma pessoa é o mesmo que passar uma vida inteira dedicado à ela

(Guimarães Rosa)
publicado por picareta escribante às 07:29
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