Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXXV

 

.

 

        AS MINHAS ILUSÕES

 

 

Hora sagrada dum entardecer

De Outono, à beira mar, cor de safira,

Soa no ar uma invisível lira...

O sol é um doente a enlanguescer...

 

A vaga estende os braços a suster,

Numa dor de revolta cheia de ira,

A doirada cabeça que delira

Num último suspiro, a estremecer !

 

O sol morreu...e veste luto o mar...

E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,

À flor das ondas, num lençol de espuma.

 

As minhas Ilusões, doce tesoiro,

Também as vi levar em urna de oiro,

No mar da Vida, assim...uma por uma...

 

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Florbela Espanca

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Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXXIV

 

.

 

         POESIAS  3

 

 

Ela canta, pobre ceifeira,

Julgando-se feliz talvez;

Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia

De alegre e anónima viuvez,

 

Ondula como o canto de uma ave

No ar limpo como um limiar

E há curvas no enredo suave

Do som que ela tem a cantar.

 

Ouvi-la alegra e entristece,

Na sua voz há o campo e a lida,

E canta como se tivesse

Mais razões p´ra cantar que a vida.

 

Ah, canta, canta sem razão !

O que em mim sente ´stá pensando.

Derrama no meu coração

A tua incerta voz ondeando !

 

Ah, poder ser tu, sendo eu !

Ter a tua alegre inconsciência,

E a consciência disso ! O céu !

Ó campo ! Ó canção ! A ciência

 

Pesa tanto e a vida é tão breve !

Entrai por mim dentro ! Tornai

Minha alma a vossa sombra leve !

Depois, levando-me, passai !

 

.

Fernando Pessoa

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Terça-feira, 28 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXXIII

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   AQUELE BREVE INSTANTE

 

 

As incoercíveis asas

Da ventura e do amor

Um instante passaram

No céu azul e fino,

Rentes, rentes de mim.

Sereno e descuidoso,

As vi partir, sabendo

Que não voltavam mais.

 

Vão já de mim distantes.

Mas, do tempo, sustive

Aquele breve instante

Da apolínea manhã,

Em que as incoercíveis asas

Da ventura e do amor,

No céu azul e fino

Voaram sobre mim.

 

 

   O AMOR E A ROSA

 

Desenhaste uma rosa,

E o meu amor nasceu

Por ti.

 

Foi milagre da rosa,

Sortilégio mistério ?

Não sei.

 

Uma rosa nasceu

E eu gostei de ti.

Apenas...

 

.

Américo Durão

.

 

 

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Segunda-feira, 27 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXII

 

.

 

                  E M    V Ã O

 

 

Passo triste na vida e triste sou,

Um pobre a quem jamais quiseram bem !

Um caminhante exausto que passou

Que não diz onde vai nem donde vem.

 

Ah ! Sem piedade, a rir, tanto desdém

A flor da minha boca desdenhou !

Solitário convento onde ninguém

A silenciosa cela procurou !

 

E eu quero bem a tudo, a toda a gente...

Ando a amar assim, perdidamente,

A acalentar o mundo nos meus braços !

 

E tem passado, em vão, a mocidade

Sem que no meu caminho uma saudade

Abra em flores a sombra dos meus passos !

 

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Florbela Espanca

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Domingo, 26 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXXI

 

.

   CANTO FRANCISCANO

 

Por onde passaste tu

Que não soubeste passar ?

Pela sandália do tempo

pelo cílio do luar

pelo cilício do vento

pelo tímpano do mar ?

Por onde passste tu

que não soubeste passar ?

 

Por onde passaste tu

que me ficaste cá dentro

tenaz do fogo divino

irmão pinho ou aloendro ?

Por onde passaste tu

que me ficaste cá dentro ?

 

Pois bem : nos campos da fome

ou nos caminhos do frio

se eu encontrasse o teu nome

lançava-te o desafio :

por onde passas-te tu

pétala viva dos pobres

irmão dos cardos dos cerdos

rei das chagas e dos pobres

- por onde passas-te tu

não passaram minhas dores !

 

Nasci da mãe que não tive

do pai que nunca terei

 e aquilo que sobrevive

é o irmão que não sei :

uma espécie de fogueira

de corpo que me deslumbra.

Tudo o mais à minha beira

é uma réstia de sombra.

- Por onde passaste tu

com artelhos de penumbra ?

 

Eis-me. Eis-me : incendiado

por não saber perdoar.

Meu irmão  passa de lado :

- Eu sei como hei-de passar.

 

.

J.C. Ary dos Santos

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Sábado, 25 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXX

 

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                    O   L O R D

 

 

Lord que eu fui de Escócias doutra vida

Hoje arrasta por esta a sua decadência,

Sem brilho e equipagens.

Milord reduzido a viver de imagens,

Pára às montras de jóias de opulência

Num desejo brumoso - em dúvida iludida...

( - Por isso a minha raiva mal contida.

- Por isso a minha eterna impaciência.)

 

Olha a s Praças, rodeia-as...

Quem sabe se ele outrora

Teve Praças como esta, e palácio e colunas -

Longas terras, quintas cheias,

Iates pelo mar fora,

Montanhas e lagos, florestas e dunas...

 

( - Por isso a sensação em mim fincada há tanto

Dum grande património algures haver perdido;

Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido -

E a Cor da minha Obra o que ficou do encanto...)

 

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Mário de Sá-Carneiro

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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXIX

 

.

 

                 CREPÚSCULO

 

 

Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes

Borboletas de sol, de asas magoadas,

Poisam nos meus, suaves e cansadas,

Como em dois lírios roxos e dolentes...

 

E os lírios fecham... Meu amor não sentes ?

Minha boca tem rosas desmaiadas,

E as minhas pobres mãos são maceradas

Como vagas saudades de doentes...

 

O Silêncio abre as mãos...entorna rosas...

Andam no ar carícias vaporosas

Como pálidas sedas, arrastando...

 

E a tua boca rubra ao pé da minha

É na suavidade da tardinha

Um coração ardente, palpitando...

 

.

Florbela Espanca

.

 

 

 

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Quinta-feira, 23 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXVIII

 

.

  DE CANTARES DA NOITE

 

 

Desce do céu, lentamente,

A solidão da paisagem;

Olha-se na água dormente

E só vê a sua imagem.

 

Vem de longe, na dolente

Tristeza dos dias baços,

Põe-se a ouvir e só sente

O som dos seus próprios passos...

 

Erra no ar docemente,

Escuta dentro de nós,

E só distingue o dormente

Silêmcio da sua voz.

 

.

Armando Côrtes-Rodrigues

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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXVII

 

.

 

         UMA GAIVOTA EXUL...

 

 

Uma gaivota exul morreu no Mar...

E o seu corpo, de cândida energia,

Sobre uma onda veio naufragar

Ao cais d´onde partira, certo dia...

 

Tinha as asas abrindo ao vento...O peito

Arqueado ainda, como se aspirasse

O perfume do largo - e insatisfeito

Mais distância quisesse e conquistasse.

 

E em seus olhos, que a Morte não cerrara,

Tanto a sede do ignoto os desvairou

- Fiquei-me a adivinhar a visão clara

D´um mundo que só ela desvendou...

 

Nesta doce manhã de Primavera

Não entristece vâ-la morta, assim :

- Voo quebrado à hora da quimera,

Quando a vida parece não ter fim...

 

É que nesse cadáver pequenino,

Crispado num tormento quase humano,

Não se apaga a alegria dum destino

Que foi Sol, que foi Céu, que foi Oceano !...

 

Ah ! pudesse eu morrer de igual loucura,

Na avidez de voar e de partir,

Com asas de ansiedade e de aventura

Entre a graça de espumas a florir !...

 

Mas que o embalo das ondas não me traga

Ao porto onde embarcar o meu desejo :

- Que uma vaga me leve, que uma vaga

Á distância me enlei o último beijo...

 

Pois eu quero julgar que o ritmo ardente

Do meu sangue, sequioso de paixão,

Fica no Mar pulsando eternamente :

- Como se fosse o Mar que sonha e sente

O sangue do meu  próprio coração !...

 

.

João de Barros

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Terça-feira, 21 de Setembro de 2010

Poemas escolhidos LXXVI

 

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          OS CINCO SENTIDOS

 

 

São belas - bem sei, essas estrelas,

Mil cores - divinais têm essas flores;

Mas eu não tenho, amor, olhos para elas :

Em toda a natureza

Não vejo outra beleza

Senão a ti - a ti !

 

Divina - ai! sim, será a voz que afina

Saudosa - na ramagem densa, umbrosa,

Será : mas eu do rouxinol que trina

Não oiço a melodia,

Nem sinto outra harmonia

Senão a ti - a ti !

 

Respira - n´aura que entre as flores gira,

Celeste - incenso de perfume agreste.

Sei...não sinto : minha alma não aspira,

Não percebe, não toma

Senão o doce aroma

Que vem de ti - de ti !

 

Formosos - saõ os pomos saborosos,

É um mimo - de néctar o racimo :

E eu tenho fome e sede...sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão...mas é de beijos,

E só de ti - de ti !

 

Macia - deve ser a relva luzidia

Do leito - ser por certo em que me deito.

Mas quem, ao pé de ti, quem poderia

Sentir outras carícias,

Tocar noutras delícias

Senão em ti - em ti !

 

A ti ! ai, a ti só os meus sentidos

Todos num confundidos,

Sentem, ouvem, respiram,

Em ti, por ti deliram.

Em ti a minha sorte,

A minha vida em ti;

E quando venha a morte,

Será morrer por ti.

 

.

Almeida Garrett

.

 

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