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TERRAS DE SOL
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Maria Leonor VIII
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Quando falei do Manel ,
todo o corpo da Maria
de alto abaixo estremeceu,
como tremem, noite fora,
as estrelinhas no céu.
Da boquinha pequenina
saltou um fraco gemido,
e ficou branca, e tão fria,
como aquela hora do dia
em que o Sol já alumia
sem ainda ter nascido...
Mal acabei de falar,
levantou-se a soluçar,
e entrou, correndo, no quarto.
Voltei-me, vi-a de costas :
joelhada, e de mãos postas,
descansava a cabecinha
na mesa do oratório,
rezando chorosa, aflita,
- como ainda hoje me lembro ! -
com a tristeza bonita
que abraça o campo à tardinha
de um pôr-do-sol em Novembro...
E os olhinhos, rasos de água,
choravam com tanta mágoa,
que até cheguei a supor
que a Virgem-Santa descesse,
do seu altar pequenino
para enxugar, com amor,
nas fontes daquela dor,
aquele orvalho divino...
Manuel Fragoso
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TERRAS DE SOL
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Maria Leonor VII
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Aqueles olhos de amor,
lá dentro, têm a cor,
a sombra fresca, o sossego,
das águas fundas de um pego
quando a vargem ressequida
arde à força de calor.
Tão bonito e tão mansinho,
lembrava-me, o seu olhar,
um casalinho de rolas
que cansado de voar
dormisse dentro do ninho.
E, ao cabo, talvez me afoite
ainda a dizer-lhes isto :
de tão negra cerração ,
aqueles dois olhos são
dois bocadinhos da noite
em que morreu Jesus Cristo.
A modos que embaraçado
plas graças daquele corpo,
que eu via crucificado
na cruz de tão grandes penas,
fiquei calado um momento;
depois, em voz muito baixa,
(talvez um nadinha apenas
mais alta que um pensamento)
enreguei a amarga história
do soldadito, sem nome,
que por desígnios de Deus,
estranha terra consome
a tantas léguas dos seus.
Manuel Fragoso
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TERRAS DE SOL
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Maria Leonor VI
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O Tio Zorro, "alfeireiro",
o velhote da Maria,
mordia o pipo ao cachimbo
e apolainava um fueiro
quando eu dobrei o quinxoso
que fica ao canto da "rua".
No ar, pesado e cheiroso,
nem uma folha bulia.
Nascia um quarto de lua
que era talhada vermelha
de uma grande melancia...
"Salve-o Deus", gritei ao velho,
levando a mão ao chapéu,
e depois de umas razões
e de outras que ele me deu
fui convidado a entrar.
Na roda-viva da casa
andava acesa a Maria...
Eu não fui lá com ideia
(seria acção negra e feia !)
de atraiçoar a memória
do meu infeliz amigo,
mas entrei, falei-lhe. olhei-a,
e logo me arrependi
de ter posto os pés no Monte.
É que eu não sei como conte,
agora, aquela impressão
que me deu volta à razão,
quando, enfim, o meu olhar
foi, de corrida, beijar
os olhos da sua cara...
Nunca vi coisa mais rara
nem mais linda perdição !
Manuel Fragoso
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TERRAS DE SOL
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Maria Leonor V
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Mas a força do destino
não deixava sossegar,
dentro do meu coração,
a doce recordação
da noite daquele olhar,
e, num domingo à tardinha,
quase à hora do Sol-posto
de um dia quente de Agosto,
meti pernas a caminho
do "Monte da Silveirinha ".
Todas as casas, por fora,
falam como um livro aberto
da beleza e das virtudes
de quem dentro delas mora;
e aquele Monte, rapazes,
afagado plas pernadas
de um sobreiro alto e velhinho,
não é um Monte, é um ninho,
é nesga de céu azul
ou canteiro sempre em flor,
e a Maria Leonor
é, por milagre de amor,
rosa, estrela e passarinho !
Manuel Fragoso
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TERRAS DE SOL
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Maria Leonor IV
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E, porque Deus quis e a sorte,
eu, que andei àpus da morte
nunca co´a morte topei,
e, finda a guerra, voltei
à lareira aconchegada
onde a velhinha Lucinda
engelhada, branca e linda,
entre rezas e promessas
feitas à Senhora d´Ayres,
aguardava a minha vinda...
Foi tão funda a comoção
do velho "abegão", meu pai,
quando assomei na ribeira,
que eu ouvi-lhe o coração
a estoirar como um gaimão
nas chamas de uma fogueira.
Era à volta do "Mei-dia" :
a espojar-se, na lavrada,
o Sol lambia a chapada
de onde a velhota descia,
toda a tremer, e num choro
de viva satisfação,
endomingada e bonita,
que toda a gente a diria
a santa da freguesia
em manhã de procissão !
Manuel Fragoso
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TERRAS DE SOL
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Maria Leonor III
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Um dia, quem o esperava ?!
uma bala mais certeira
atirou com o Manuel
para o fundo da trincheira...
Quando cheguei junto dele,
já quase não tinha alento,
e eu bebi-lhe o sofrimento
nuns olhos de despedida
que a sombra feia da morte
arrancava à luz da vida...
Num dos bolsos da fardeta,
apertado com amor
àquele peito valente,
um retrato pequenino
onde eu vi e toda a gente
- tão grandes como dois mundos ! -
os olhos negros e fundos
da Maria Leonor.
Fiz, então, o juramento
que apenas Deus, sempre atento,
deve no céu ter ouvido,
de buscar essa mulher,
se por acaso voltasse,
para eu próprio lhe dizer
como soubera morrer
o seu nobre namorado;
e acompanhei, sucumbido,
o corpo frio do soldado
que a ceifa da grande guerra
deixou, tombado e perdido,
tão longe da sua terra !
Manuel Fragoso
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TERRAS DE SOL
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Maria Leonor II
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"Numa tarde de Janeiro
largámos lá de Lisboa...
Nos olhos de quem partia
eram mais fundas as mágoas
que fundas eram as águas
por onde o vapor corria.
E a gente dos nossos campos,
tomada embora de medo,
escondia-o como um segredo
olhando o mar a sorrir.
- E só nisso consistia
toda a nossa valentia ! -
Três dias depois chegámos,
entre sustos e baldões,
às terras frias de França,
e foi durante a viagem,
que apertei as relações
de boa camaradagem
com o Manuel da Apariça
que eu conhecera, anos antes,
na tiragem da cortiça
do lavrador dos "Outeiros"
- Ai, era um cara direita
e um camarada leal ! -
No país dos nevoeiros,
fomos dois bons companheiros,
irmãos na mesma saudade
do Sol do nosso Alentejo
e do céu de Portugal !
Manuel Fragoso
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TERRAS DE SOL
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Maria Leonor I
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Entre vozes de alegria
tinha acabado a função
no largo da freguesia,
depois da missa rezada
na Capelinha sagrada
das terras de São Geraldo.
Quando na missa o prior
falara do casamento
da Maria Leonor
com o Francisco Valada,
houve assim como um rumor
de coisa desaprovada...
Já, no cheiro da merenda,
voltavam, caminho fora,
alguns moços da lavoura
das herdades da "Comenda"
e a quente respiração
da tarde, morna e pesada,
corria em línguas de fogo,
nos campos em combustão.
Com a malta ia o Valada,
rapaz de peito valente
que tinha andado na guerra
defendendo a sua terra
e os brios da nossa gente.
Vamos ouvi-lo contar,
talvez com certa intenção
de desafronta bravia,
como voltara de França
e conhecera a Maria :
Manuel Fragoso
TERRAS DE SOL
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A Cigana V
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Foi então, quando soou
aquele tiro de pistola
que, por pouco, não matou
o nosso lavrador moço.
A bala passou zunindo
como se fosse um besouro,
e o meu coração ficou
encolhido e pequenino,
como um baguinho de trigo
nas palhas de um calcadouro.
Vi o Patrão encostar-se
ao tronco de um eucalipto,
e ouvi um ai!..muito fundo,
- um ai ! que já parecia
que vinha do outro mundo.
Depois ouvi o "strapel"
de um cavalo à desfilada
e a queda surda de um corpo
que cai redondo no chão.
- A noite ficou de novo
quietinha e triste, fechada ! -
Pus-me a gritar por socorro,
julgando morto o Patrão,
mas é tão lindo e sagrado
o peito de um namorado
que a bala passou de lado
e poupou-lhe o coração ! "
Fim do 3º Conto
Manuel Fragoso
TERRAS DE SOL
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A Cigana IV
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Com as bestas à arreata
saí às portas de Aviz
e cheguei, à hora exacta,
à beira do chafariz.
À minha espera, há bocado,
já lá estava o lavrador.
- Que o relógio do amor
anda sempre adiantado ! -
Lua nova, noite escura,
mais cerrada, valha a breca !
que uma noite de charneca
só com as estrelas a arder
no tecto negro do céu.
No silêncio assustador
de tamanha escuridão,
a noite fazia horror.
- Talvez imaginação
desta cabeça doente
que adivinhava a traição ! -
A vinte passos da estrada,
as cinzas de uma fogueira
e o poiso da ciganada,
que adormecera, cansada
do Sol, do pó e da feira.
O patrão saltou ligeiro
a vala estreita da berma;
tirou do bolso o isqueiro
e, por três vezes, fez lume,
desafiando o ciúme
que se escondia na sombra.
Era o sinal entre os dois.
Houve um silêncio, e depois
um vulto escuro avançou...
(Continua)...
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