Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor VIII

.

TERRAS DE SOL

.

Maria Leonor VIII

.

Quando falei do Manel ,

todo o corpo da Maria

de alto abaixo estremeceu,

como tremem, noite fora,

as estrelinhas no céu.

Da boquinha pequenina

saltou um fraco gemido,

e ficou branca, e tão fria,

como aquela hora do dia

em que o Sol já alumia

sem ainda ter nascido...

Mal acabei de falar,

levantou-se a soluçar,

e entrou, correndo, no quarto.

Voltei-me, vi-a de costas :

joelhada, e de mãos postas,

descansava a cabecinha

na mesa do oratório,

rezando chorosa, aflita,

- como ainda hoje me lembro ! -

com a tristeza bonita

que abraça o campo à tardinha

de um pôr-do-sol em Novembro...

E os olhinhos, rasos de água,

choravam com tanta mágoa,

que até cheguei a supor

que a Virgem-Santa descesse,

do seu altar pequenino

para enxugar, com amor,

nas fontes daquela dor,

aquele orvalho divino...

   (Continua)...

 Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 05:05
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor VII

.

TERRAS DE SOL

.

 Maria Leonor VII

.

Aqueles olhos de amor,

lá dentro, têm a cor,

a sombra fresca, o sossego,

das águas fundas de um pego

quando a vargem ressequida

arde à força de calor.

Tão bonito e tão mansinho,

lembrava-me, o seu olhar,

um casalinho de rolas

que cansado de voar

dormisse dentro do ninho.

E, ao cabo, talvez me afoite

ainda a dizer-lhes isto :

de tão negra cerração ,

aqueles dois olhos são

dois bocadinhos da noite

em que morreu Jesus Cristo.

 

A modos que embaraçado

plas graças daquele corpo,

que eu via crucificado

na cruz de tão grandes penas,

fiquei calado um momento;

depois, em voz muito baixa,

(talvez um nadinha apenas

mais alta que um pensamento)

enreguei a amarga história

do soldadito, sem nome,

que por desígnios de Deus,

estranha terra consome

a tantas léguas dos seus.

   (Continua)...

      Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:02
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor VI

.

TERRAS DE SOL

.

 Maria Leonor VI

.

O Tio Zorro, "alfeireiro",

o velhote da Maria,

mordia o pipo ao cachimbo

e apolainava um fueiro

quando eu dobrei o quinxoso

que fica ao canto da "rua".

No ar, pesado e cheiroso,

nem uma folha bulia.

Nascia um quarto de lua

que era talhada vermelha

de uma grande melancia...

 

"Salve-o Deus", gritei ao velho,

levando a mão ao chapéu,

e depois de umas razões

e de outras que ele me deu

fui convidado a entrar.

 

Na roda-viva da casa

andava acesa a Maria...

Eu não fui lá com ideia

(seria acção negra e feia !)

de atraiçoar a memória

do meu infeliz amigo,

mas entrei, falei-lhe. olhei-a,

e logo me arrependi

de ter posto os pés no Monte.

É que eu não sei como conte,

agora, aquela impressão

que me deu volta à razão,

quando, enfim, o meu olhar

foi, de corrida, beijar

os olhos da sua cara...

Nunca vi coisa mais rara

nem mais linda perdição !

 (Continuação)

Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 05:59
link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor V

.

TERRAS DE SOL

.

  Maria Leonor V

.

Mas a força do destino

não deixava sossegar,

dentro do meu coração,

a doce recordação

da noite daquele olhar,

e, num domingo à tardinha,

quase à hora do Sol-posto

de um dia quente de Agosto,

meti pernas a caminho

do "Monte da Silveirinha ".

 

Todas as casas, por fora,

falam como um livro aberto

da beleza e das virtudes

de quem dentro delas mora;

e aquele Monte, rapazes,

afagado plas pernadas

de um sobreiro alto e velhinho,

não é um Monte, é um ninho,

é nesga de céu azul

ou canteiro sempre em flor,

e a Maria Leonor

é, por milagre de amor,

rosa, estrela e passarinho !

    (Continua)...

     Manuel Fragoso

 

publicado por picareta escribante às 05:58
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor IV

.

TERRAS DE SOL

.

 Maria Leonor IV

.

E, porque Deus quis e a sorte,

eu, que andei àpus da morte

nunca co´a morte topei,

e, finda a guerra, voltei

à lareira aconchegada

onde a velhinha Lucinda

engelhada, branca e linda,

entre rezas e promessas

feitas à Senhora d´Ayres,

aguardava a minha vinda...

 

Foi tão funda a comoção

do velho "abegão", meu pai,

quando assomei na ribeira,

que eu ouvi-lhe o coração

a estoirar como um gaimão

nas chamas de uma fogueira.

 

Era à volta do "Mei-dia" :

a espojar-se, na lavrada,

o Sol lambia a chapada

de onde a velhota descia,

toda a tremer, e num choro

de viva satisfação,

endomingada e bonita,

que toda a gente a diria

a santa da freguesia

em manhã de procissão !

    

   (Continua)...

 Manuel Fragoso

 

 

publicado por picareta escribante às 05:57
link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor III

.

TERRAS DE SOL

.

 Maria Leonor III

.

Um dia, quem o esperava ?!

uma bala mais certeira

atirou com o Manuel

para o fundo da trincheira...

Quando cheguei junto dele,

já quase não tinha alento,

e eu bebi-lhe o sofrimento

nuns olhos de despedida

que a sombra feia da morte

arrancava à luz da vida...

Num dos bolsos da fardeta,

apertado com amor

àquele peito valente,

um retrato pequenino

onde eu vi e toda a gente

- tão grandes como dois mundos ! -

os olhos negros e fundos

da Maria Leonor.

Fiz, então, o juramento

que apenas Deus, sempre atento,

deve no céu ter ouvido,

de buscar essa mulher,

se por acaso voltasse,

para eu próprio lhe dizer

como soubera morrer

o seu nobre namorado;

e acompanhei, sucumbido,

o corpo frio do soldado

que a ceifa da grande guerra

deixou, tombado e perdido,

tão longe da sua terra !

   (Continua)...

    Manuel Fragoso

 

publicado por picareta escribante às 05:54
link do post | comentar | favorito
Domingo, 10 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor II

.

TERRAS DE SOL

.

  Maria Leonor II

.

"Numa tarde de Janeiro

largámos lá de Lisboa...

Nos olhos de quem partia

eram mais fundas as mágoas

que fundas eram as águas

por onde o vapor corria.

E a gente dos nossos campos,

tomada embora de medo,

escondia-o como um segredo

olhando o mar a sorrir.

- E só nisso consistia

toda a nossa valentia ! -

 

Três dias depois chegámos,

entre sustos e baldões,

às terras frias de França,

e foi durante a viagem,

que apertei as relações

de boa camaradagem

com o Manuel da Apariça

que eu conhecera, anos antes,

na tiragem da cortiça

do lavrador dos "Outeiros"

- Ai, era um cara direita

e um camarada leal !  -

No país dos nevoeiros,

fomos dois bons companheiros,

irmãos na mesma saudade

do Sol do nosso Alentejo

e do céu de Portugal !

 (Continua)...

     Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:12
link do post | comentar | favorito
Sábado, 9 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor I

.

TERRAS DE SOL

.

  Maria Leonor I

.

Entre vozes de alegria

tinha acabado a função

no largo da freguesia,

depois da missa rezada

na Capelinha sagrada

das terras de São Geraldo.

Quando na missa o prior

falara do casamento

da Maria Leonor

com o Francisco Valada,

houve assim como um rumor

de coisa desaprovada...

 

Já, no cheiro da merenda,

voltavam, caminho fora,

alguns moços da lavoura

das herdades da "Comenda"

e a quente respiração

da tarde, morna e pesada,

corria em línguas de fogo,

nos campos em combustão.

 

Com a malta ia o Valada,

rapaz de peito valente

que tinha andado na guerra

defendendo a sua terra

e os brios da nossa gente.

Vamos ouvi-lo contar,

talvez com certa intenção

de desafronta bravia,

como voltara de França

e conhecera a Maria :

 (Continua)...

    Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:17
link do post | comentar | favorito
Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - A Cigana V

TERRAS DE SOL

.

     A Cigana V

.

Foi então, quando soou

aquele tiro de pistola

que, por pouco, não matou

o nosso lavrador moço.

A bala passou zunindo

como se fosse um besouro,

e o meu coração ficou

encolhido e pequenino,

como um baguinho de trigo

nas palhas de um calcadouro.

 

Vi o Patrão encostar-se

ao tronco de um eucalipto,

e ouvi um ai!..muito fundo,

- um ai ! que já parecia

que vinha do outro mundo.

Depois ouvi o "strapel"

de um cavalo à desfilada

e a queda surda de um corpo

que cai redondo no chão.

 

- A noite ficou de novo

quietinha e triste, fechada ! -

 

Pus-me a gritar por socorro,

julgando morto o Patrão,

mas é tão lindo e sagrado

o peito de um namorado

que a bala passou de lado

e poupou-lhe o coração ! "

 Fim do 3º Conto

 Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:12
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - A Cigana IV

TERRAS DE SOL

.

   A Cigana IV

.

Com as bestas à arreata

saí às portas de Aviz

e cheguei, à hora exacta,

à beira do chafariz.

À minha espera, há bocado,

já lá estava o lavrador.

- Que o relógio do amor

anda sempre adiantado ! -

Lua nova, noite escura,

mais cerrada, valha a breca !

que uma noite de charneca

só com as estrelas a arder

no tecto negro do céu.

No silêncio assustador

de tamanha escuridão,

a noite fazia horror.

- Talvez imaginação

desta cabeça doente

que adivinhava a traição ! -

A vinte passos da estrada,

as cinzas de uma fogueira

e o poiso da ciganada,

que adormecera, cansada

do Sol, do pó e da feira.

O patrão saltou ligeiro

a vala estreita da berma;

tirou do bolso o isqueiro

e, por três vezes, fez lume,

desafiando o ciúme

que se escondia na sombra.

Era o sinal entre os dois.

Houve um silêncio, e depois

um vulto escuro avançou...

(Continua)...

Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:06
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Fevereiro 2016

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9


25
26
27

28


.posts recentes

. Efemérides Artísticas do ...

. Efemérides Artísticas do ...

. Cabo Verde‏

. Efemérides Artísticas do ...

. Efemérides Artísticas do ...

. Efemérides Artísticas do ...

. Efemérides Artísticas do ...

. Efemérides Artísticas do ...

. Efemérides Artísticas do ...

. Efemérides Artísticas do ...

.arquivos

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

.tags

. todas as tags

.links

blogs SAPO

.subscrever feeds