Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2008

Interrupção

 

 

POR MOTIVO DE GRAVE DOENÇA DE UM FAMILIAR, AS

 

PUBLICAÇÕES NESTE BLOG ESTÃO PROVISORIAMENTE

 

SUSPENSAS.

 

ESPERAMOS RETOMÁ-LAS EM BREVE.

 

 

Picareta Escribante

publicado por picareta escribante às 15:40
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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - O Tomé de Bencatel VI

.

Terras de Sol

.

O Tomé de Bencatel VI

.

Encostado a um sobreiro

vi abrir, devagarinho,

a porta velha do "Monte"

e um homem sair, ligeiro,

na direcção do valado...

Fiquei tonto, atordoado,

sem respirar, sem viver,

perante a vesga traição

daquela falsa mulher !

Por desgraça minha e dela,

a Rosa veio à janela

despedir o condenado...

Perdido, louco, selvagem,

busquei na cinta a pistola

que comprara a uns ciganos

pra me afoitar na viagem,

e despejei-lhe os dois canos

mo lugar do coração !...

E a negra...recordação

daquela noite sem fim,

pesa ainda sobre mim,

como eterna maldição."

 

A voz do moço arquejava,

e no seu peito, Jesus !

ia-se apagando a vida

como em candeia esquecida

se vai apagando a luz .

 

Ao longe, uma hiena uivava,

e envolta em manta cinzenta,

firme, segura e atenta,

a morte, muda, aguardava.

 

O olhar preso no meu,

já meio desfalecido,

num soluço e num gemido,

o bom do Tomé morreu.

 

Chorando, fechei-lhe os olhos

com caridoso respeito,

e cruzei-lhe as mãos no peito

com profunda comoção.

 

Lá fora, a noite abrasava !...

 

Abri a porta e, então,

na miséria da cubata,

o luar correu no chão

como um tapete de prata.

 

Do suor que me alagava

tinha encharcada a camisa.

Sem o rumor de uma brisa,

as folhas eram de pedra,

o mato cuspia fogo,

e a luz da lua, queimava !...

            F  I  M

   Manuel Fragoso

 

Nota da Redacção :

.

Terminada a divulgação de "Terras de Sol", existem mais duas obras do mesmo Autor editadas em livro, pela Sociedade Portuguesa de Autores. Embora sejam peças de Teatro (mais indicadas para serem representadas, do que para serem lidas), não resisto à sua divulgação (pelos mesmos motivos porque publiquei a primeira : para que a sua Obra não fique esquecida). A partir de amanhã, começarei a divulgar a Comédia intitulada : "A Prima Eugénia".

 

Picareta Escribante

 

publicado por picareta escribante às 05:23
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - O Tomé de Bencatel V

.

Terras de Sol

.

O Tomé de Bencatel V

.

Chegado um fim-de-semana,

fiz contas, e atravessando

as margens do Guadiana,

fui dormir a Capelins .

Na manhã do outro dia

(o Sol ainda dormia)

e eu, a pé, já caminhava

por terras de Portugal.

Andando um bom par de léguas

cheguei tarde, noite fora,

ao sítio da "Cotovia".

Batiam três da manhã

na torre da freguesia.

Ia a morrer de cansaço,

mas a voz do próprio sino,

como a força do destino,

foi-me levando plo braço

ao "Monte" onde ela morava...

 

Era uma noite de estrelas

todas pregadas no Céu,

a noite que decidiu

da sina que Deus me deu !

Ah! noite, noite maldita !

noite deserta, sem lua,

que mal te fizera eu

ou que maldade era a tua ?!

  (continua)...

     Manuel Fragoso

 

publicado por picareta escribante às 05:22
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - O Tomé de Bencatel IV

.

Terras de Sol

.

O Tomé de Bencatel IV

.

Mas já me avisara alguém :

Tomé, afirma-te bem,

bonita como ninguém,

no badalar dos vizinhos,

a Rosa, que é Rosa, tem,

porque é rosa, os seus espinhos.

Mas eu perdera os ouvidos;

tão cego de amor andava,

que dos meus cinco sentidos

só o da vista contava.

Em três semanas, se tanto,

logo ajustámos casar.

Para ganhar mais uns cobres,

que nunca sobram aso pobres,

com cautela e certa manha,

cruzei a fronteira a salto

e fui prás ceifas de Espanha.

 

Trabalhar, se trabalhei !...

Dormir, dormia ao relento

e, às vezes, com que agonia,

poupava mesmo o sustento,

com tal força de vontade,

que até vencia a saudade

que por dentro me roía !

 

Uns meses depois voltei ;

e a confiança era tanta,

como se fosse uma santa

que estivesse à minha espera.

Alegre, feliz, tranquilo,

vendia contentamento,

porque o dinheiro que ganhara

bastava pró casamento.

(Continua)...

         Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 05:21
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - O Tomé de Bencatel III

.

Terras de Sol

.

O Tomé de Bencatel III

.

Foi na feira do Torrão

de noite, numa função,

que o Tomé a conheceu.

"Nem correndo a Terra inteira

- disse-mo ele, a chorar -

eu poderia encontrar

um sorriso igual ao dela ;

pois quando a Rosa sorria

logo um cheirinho de beijos

da sua boca corria :

um cheiro que entontecia

mordendo o juizo à gente

- o cheiro que me perdeu -

como sopro forte e quente

da respiração do céu ! -

Neste mundo não andava

um corpinho igual ao seu,

tanta graça ela lhe dava

da graça que Deus lhe deu !...

Mas tinha uns olhos estranhos,

por vezes turvos, castanhos,

com silêncios de maldade;

outras, verdes, cor do mar,

com desmaios de luar

e sinais da falsidade

com que depois me traiu.

  (Continua)...

Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:17
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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - O Tomé de Bencatel II

.

TERRAS DE SOL

.

O Tomé de Bencatel II

.

Se todos têm vagar,

oiçam agora, e assuntem

no caso que vou contar,

porque o triste degredado

não passou de um malfadado

que merecia perdão.

Lá que matou, foi verdade,

mas com maior crueldade

lhe houvera ela esmagado

as fibras do coração.

Oiçam a história e, depois,

digam-me, então, de entre os dois,

quem foi o maior culpado !


Ninguém foge ao "tem de ser".

Quem vem ao mundo, a meu ver,

traz o destino marcado

e há-de encontrar a mulher

com quem Deus o quis fazer

ou feliz ou desgraçado.


Cansado dos desenganos

e das maldades da vida,

a cabeça já tingida

pla renda branca dos anos,

embarquei pró Utramar ;

e entre negaças da sorte,

fui à procura da morte,

ou da vida, no sertão;

e foi, num canto do mato,

que a roda velha de um carro

me assinalou a palhota,

de folhas secas e barro,

onde o Bencatel morria,

Era a tarde uma fogueira !...

Caído sobre uma esteira

o Tomé ardia em febre.

Mal nos falámos, falou

- falou da Rosa Maria .

   (Continua)...

  Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:19
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - O Tomé de Bencatel I

.

TERRAS DE SOL

.

O Tomé de Bencatel I

.

Vocês "alembram-se " ainda

do filho do Ti Lagarto,

do Tomé de Bencatel ,

que há coisa aí de uns dez anos,

na manhã de São Miguel,

matou a Rosa Maria

com quem estava pra casar,

que era a moça mais linda

das terras da "Cotovia" ?

Pois morreu à minha beira,

na podridão de uma esteira,

sem socorro, abandonado,

como morre um cão danado

na solidão da charneca.

(Coisas da vida e da sorte !)

Da boca, já fria e seca,

quase nas ânsias da morte,

e naquela hora sagrada

em que não mente ninguém,

ouvi-o de confissão.

Fiquei então a saber

o que pode uma mulher

e a força de uma paixão

quando manda o coração

que é a coisa mais danada

que a gente cá dentro tem !

 

Talvez se "alembrem " também

que da boca do Tomé

ninguem ouviu as razões

do que entre os dois se passou;

que nem o próprio juiz,

daquele peito infeliz

meia verdade arrancou.

Falaram-lhe em Deus, na Lei,

na Mãe velhinha e honrada,

e o Tomé, da cor da cal,

do banco do Tribunal,

só respondia : " Matei !

Não me perguntem mais nada,

que eu nada mais lhes direi ! "

 

E aquele horrível segredo

de sofrimento e de dor,

- triste fim de um grande amor ! -

foi com ele pró degredo,

levou-o ele consigo,

porque foi esse o castigo

que lhe deu Nosso Senhor !

(Continua)...

       Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:18
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor XI

.

TERRAS DE SOL

.

 Maria Leonor XI

.

Íamos chegando à rua

do Monte do tio Zorro,

quando o candeeiro da Lua

sobre a chapada acendeu.

A noite piscava os olhos

- que os olhos vivos da noite

são às estrelas do Céu -.

Calada e triste, a Maria,

toda encostada ao meu braço

já não chorava, sorria.

Jamais noiva tão bonita

foi conduzida ao altar.

A Lua dava-lhe em cheio,

e o seu vestido de chita,

com rendinhas de entremeio,

parecia de luar !...

 

Ouvi-a de confissão.

Na mulher que peca e fala

toda a fala tem perdão,

mas na mulher que se cala,

já o silêncio é traição.

 

A verdade é que o Manel

só não levou a Maria

à comunhão do altar,

porque a morte, torva e fria,

roubando-lhe a ele a vida

a ela roubou-lhe o lar !...

 

Julgo-me um homem honrado,

- um homem de coração ! -

e escolhi para mulher

a "viúva" de um soldado

que morreu como um herói

pla terra que o viu nascer,

e vou levá-la à igreja

- Bendita e louvada seja ! -

com amor e devoção.  "

     

     Fim do 4ª Conto

     Manuel Fragoso

 

 

 

publicado por picareta escribante às 06:15
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Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor X

TERRAS DE SOL

.

 Maria Leonor X

.

Ai, Alentejo, Alentejo,

só tu sabes, boa gente,

a força que tem um beijo,

unindo cara com cara,

e ardendo, qual chama quente,

do Sol que queima a seara !

 

O beijo tomou-a toda,

e só as flores e os ninhos

é que foram os padrinhos

nas festas da sua boda !...

 

Parece que a vejo ainda

muito branca, muito linda,

e pura de todo o mal,

limpando os olhos, chorosa,

à pontinha cor-de-rosa

do seu bonito avental.

 

E eu ouvi sem um queixume

sem um ai, sem um lamento,

sem um grito de ciúme,

aquelas simples palavras

de humildade e confissão,

que não caíram, pousaram,

dentro do meu coração,

como, nos braços do vento,

as folhas secas das árvores

poisam de leve no chão.

Mas, em verdade, confesso,

quase amarguei a lembrança

do desditoso soldado

que eu vira morrer na França,

mas que já fora senhor

daquele corpo de amor

daquele santo corpinho,

(tão airoso e delicado !)

que cheirava a rosmaninho

e era doirado e macio

como pasto de pousio

que nunca foi gadanhado.
 (Continua)...

      Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:10
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Terras de Sol - Maria Leonor IX

.

TERRAS DE SOL

.

 Maria Leonor IX

.

Tornei mais tarde, depois,

já não passavam dois dias

sem nos falarmos os dois...

 

Quanto ao mais que se passou,

da parte dela seria

quem sabe se gratidão,

se natural simpatia:

mas, enfim, que confusão,

era uma honrada alegria

e, ao mesmo tempo, o remorso

da amargurada lembrança

que me trouxera da França

pra me ligar à Maria.

 

Numa tarde de calmeira

quase ao pôr do ar-do-dia ,

abeirei-me da Maria

que voltava da ribeira...

 

Num fogaréu vivo e quente,

o Sol despia, na Serra,

o seu capote romã,

que trazia do Nascente

desde o romper da manhã,

quando ouvi da boca dela,

a pobre história, singela,

do seu infeliz noivado;

encontraram-se na fonte

que fica perto do Monte

numa volta do caminho

entre freixos e silvados

(Deus fez aquele cantinho

prás falas dos namorados !)

e a Maria Leonor

contou-me, então, a chorar,

o que fora a despedida,

pois tudo quisera dar

como lembrança e penhor

daquela noite de amor,

que foi a noite maior

dos dias da sua vida.

 

Como chuva miudinha

que cai às vezes do céu,

um choro triste correu

dos olhos da pobrezinha

que um beijo de amor perdeu.

  (Continua)...

 Manuel Fragoso

publicado por picareta escribante às 06:06
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